Amado amor, eu não o amo. Eu nunca senti sua falta, nem angustiei uma pontinha de saudades. Não tremi ao esperar sua voz ao telefone, não reparei se seus olhos tem duas ou mais cores, nem testei o timbre de sua voz. Como é mesmo a sua voz?
Vida minha, eu falei muito por falar e menti muito por mentir, e assim, como vaso espatifado, derramei rios de esquecimento em ponteiros vagos. Eu não conheci sua cor favorita e não escutei por inteiro seus mirabolantes planos que nunca (nunca) deram certo. Eu não me importei se você preferia virar à direita ou seguir adiante e eu não procurei saber - simplesmente porque nunca fez diferença alguma. Eu não dei ouvidos aos conselhos baratos, não dei olhos à sua camisa bem passada e não dei bocas aos seus beijos.
É verdade, coração, eu estava lá com frequência, mas meu peito estacionava vazio, a carne deitava fria e os miolos viajavam dentro de um balão - tudo em silêncio.
Nas profundas conversas, eu boiava no raso, nas descontroladas risadas, apenas mostrava como cuido dos dentes, nas noites boêmias, só enchia a cara e nas manhãs, enchia o peito para esvaziar a alma.
Meu querido, há ainda quem diga que isso é amor cafajeste, você pode acreditar? Com você eu pude virar uma pagina inteira em branco, viajar em um balão, cuidar bem dos dentes, boiar em pleno concreto, ter noites de em vão, lidar com vasos quebrados e eu pude, sim, deixar de conhecer você - eu tive essa opção!
Por isso, amado amante, eu posso gritar em alto e bom som pra quem quiser ouvir: nuca terei tanto orgulho de ter passado uma parte da vida contigo, afinal, eu tive tanto tempo pra mim, que hoje, dedico um pouco pra você.