quinta-feira, 28 de abril de 2011

POENTE




Te vejo longe, longe como poderia ser um longe além das palavras. E sem trilhas ou pistas de João e Maria, aceno, dispersando seus passos por debaixo de meus cílios. Nossos filhos nunca descerão dos céus para nos ver. Ah, só Deus sabe o quanto é difícil entender como as coisas são! Deixo um pedaço de mim no seu bolso da camisa e levo um resquício de nós dois no frio na barriga que é o soar do seu nome. Só Deus sabe como é difícil entender como as coisas são, mas debaixo deste sol que faz agora, é assim que deve ser.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

O LIVRO DO CORPO





Quando abrir os olhos e aqueles raios por entre a cortina dourarem caminho para o dia, meu corpo estará ali, entre a cama e um pedaço do lençol do dia anterior. E se olhar bem de perto, onde eu sinta o respirar de tua vida, poderá ler-me como livro novo e sem capa. Por entre as curvas, coloridas figuras e espaços em branco: tramas, loucuras, passados e futuros diante de suas retinas. No virar das páginas, um virar do avesso. No terminar o interminável, o batom de adeus por entre seus dedos do até agora. Pode ler-me sem medo, decifra-me linha por linha e torturar-me com minhas próprias verdades, mas o livro, este poema entregue aos dias e noites, nunca será seu pela eternidade. Embora o que agora leia seja eterno enquanto dure suas retinas...

terça-feira, 26 de abril de 2011

REPELENTE




Pela quarta vez, em uma quarta dimensão, meus olhos puderam ver aquilo que não pode ser dito em um mundo onde tudo é "História" ditada, peças de automóveis e amores trancados dentro de um telhado repleto de cacos de vidro. Para a vida? Repelente.

terça-feira, 19 de abril de 2011

EU SENHORITA




Eu não disse nada sobre mim, absolutamente! Eu nem sei do eu de mim. E ai de mim se sei sem saber! Quanto a ti, senhorita, devo dizer que tens lábios lindos e com sabor raro, mas as palavras que os abre e fecha não pousam bem aos cantos dos ouvidos. É uma pena! Mas a pena maior é a de saber que já está com os pés na maria fumaça do até breve. Isto significa o adeus do não saber de mim. Rezo e peço aos ventos celestiais que tua saia rendada deixe de rasgar os corações e que a fé no pote de açúcar seja mais doce quando chá. Por ora, enquanto pulsa o relógio do último instante daquilo que passa e fica quando se vai, te empresto minha alma para te acalmar. Feche os olhos e, baixo, pense alto além do além. Sei que moro no silêncio do não sei quem sou, mas quem sabe o sábio é mesmo não saber.

COR DE COR




A vida corre rápido como um raio e faz chover quando menos se espera. Vivo molhada enquanto planejo a fuga de ontem. Pergunto aos meus olhos se eles têm cor, ou se é a cor que os faz olhos? Sou um projeto de luz e sombra entre o ponteiro e a última badalada. Alguém já alcançou o eco? Ouvi uma boca falando o mais lindo e imperfeito contrário - inúmeras vezes. Sou o maremoto e o marinheiro, só. Eu não sei amar. Desaprendi a língua do pólen quando comecei a florescer. Na idosa poltrona de veludo, ainda pousam duas asas a voar. Mas eu, a idéia quente de um ponto branco e louco, escolhe as tintas de um amanhã sem paleta, de uma montanha sem altura e de uma corda sem pescoço.

domingo, 17 de abril de 2011

NABOPOLASSAR NÃO SABE VOAR




Dizem que Nabopolassar ainda está vagando por Babel em busca da felicidade perdida, e disto eu não tenho dúvidas. Certa vez fui buscá-lo para que conhecesse os caminhos que levam à 'Morada da Neve', mas ele não aguentou a luz do sol e correu de volta à Torre como um guepardo faminto.
As paredes de Nabopolassar não são feitas de tijolos ou pedras, mas são muito mais difíceis de derrubar. Nabopolassar sofre do "tédio mortal da imortalidade".


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NABOPOLASSAR, BABEL E A CEGUEIRA




Mudei-me para a Torre de Babel assim que completei quinze anos de idade e logo pude sentir o cheiro da liberdade pela primeira vez: amargo e doce, intenso e misterioso. Dividia o espaço com muitas outras pessoas que pareciam correr contra o vento e lutar contra as mais novas vinte e quatro horas.
No andar de cima, mais precisamente na porta cento e treze, morava um tocador de tambores chamado Nabopolassar. Não era bonito, nem alto, nem sábio, mas tinha seu charme, talvez por não ter nenhum. Nos casamos dois dias depois de nos conhecermos, e, em quarenta e oito horas, Nabopolassar parecia um Deus saído do Eufrates.
Eu estava feliz e acreditava em liberdade. Mesmo nunca saindo de dentro da Torre, sentia naquelas paredes constantemente renovadas que atingiria o céu em breve, apenas com o esforço dos blocos de pedra. Mas as coisas foram tomando rumos diferentes...
Nabopolassar convenceu-me em fazer parte de um grupo de descolados chamado 'hedonistas'. A intensidade do prazer com que vivíamos era deliciosa e inexplicável. Alcançávamos o céu a todo instante, e ríamos, e caíamos, e tocávamos à beira do Tigre durante seguidas noites.
Passados alguns anos, a vida continuava a mesma, mas eu já não estava mais casada. Nabopolassar e eu não nos entendíamos e estávamos sempre entregues aos nossos costumes hedonistas. Nossa união não fazia mais sentido, não sentíamos mais nada pelo outro, ou pelos outros, e nem mesmo sentíamos.
Chorei durante dias enquanto procurava o lugar onde havia deixado minha intensa e surpreendente felicidade. Procurei em cada canto, em cada fresta, mesa ou porta: nada!
Resolvi, por fim, que me mudaria para a 'Morada da Neve'. Deste momento em diante, começava minha verdadeira vida rumo ao despertar...



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sábado, 16 de abril de 2011

DESEQUILIBRISTA




Depois de uma longa fila de perguntas feitas pelo sapo de cartola amarela, resolvi me tornar desequilibrista de cogumelos silvestres. Aquele anfíbio arregalou os olhos com surpresa felina e perguntou-me se eu sabia mesmo flutuar como um dente de leão. Ri. Se eu tivesse mais uma asa ele não ousaria se dirigir a mim com aquela ironia típica dos sapos de coaxar empinado. Enfim. Saí com rebolar de vagalume, levando nas mãos meu ticket fluorescente: finalmente eu teria meu primeiro dia de folga! Durante muito tempo trabalhei duro, na rede, pensando e pensando e pensando. Meu avô nunca havia me dito como era difícil ganhar idéias para sobreviver. De qualquer maneira, eu já estava rica e precisava de meu tempo de folga. Desequilibrista de cogumelos silvestres, que maravilha de férias permanentes.


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quinta-feira, 14 de abril de 2011

VOCÊ VIU?




Eu não sei. Não acredito em aviões, só em discos voadores! Mas eu vi, tinha asas e luzes e estava além das nuvens que dançavam algum tipo de dança de eucalipto. Bem, ao menos foi isto que as ouvi dizendo "dança de eucalipto". Que dança! Elas sabem mesmo como mexer as gotículas. Mas o objeto (se objeto) que ziguezagueava acima, era um tipo de engenhoca transcendendal. Não tinha forma exata, nem som e nem cor definida. Ah, mas que presença de elefante! Pensei em chamar umas das minhas amigas bolhas de sabão para investigar, mas elas estavam ocupadas brincando de estourar noutro lugar. Também liguei para uma estrela, mas era dia e ela dormia como ostra. Eu estava um pouco distante do chão, acho que uns onze centímetros e meio, usava meias de açúcar refinado que ganhei da minha avó. Estiquei os braços e gritei baixinho para que ninguém ouvisse. Deu certo! As luzes não me ouviram e logo apontaram para meus olhos. Pude ver um claro de um escuro tão agudo que sorri escancarando os dentes. Depois disto, pouco me importava o que era aquilo (se aquilo). Eu tinha as nuvens e as meias. Verdade, caros caramujos, eu flutuava...

segunda-feira, 11 de abril de 2011

A BOCA



Dentro de um refúgio daquilo que não sou, sem carta debaixo das mangas ou truques de maquiagem, caminho lentamente sem tecidos ou idéias pelo corpo, e, com a coragem de uma formiga carregando uma planta carnívora, guardo entre os dedos um terço de sussurros de outros carnavais fora de época. A facilidade em esquecer me faz lembrar todos os dias de escovar os dentes. Ah, feliz a boca que cala enquanto aguarda o beijo tagarela...

LOUCURA PROVOCADA




Foi loucura provocada durante muitos anos. Foi. Insanidade no fim do copo, sede de camelo, derrapadas no trajeto das linhas cruzadas, plantação de caramelos azuis, degustação de cogumelos adocicados. A imagem? Perdida em um dos lados do espelho. Em qual dos lados? Esqueci.
Hoje, enquanto arranco a blusa, abraço a loucura e beijo sua boca intensamente no mesmo instante em que ela me engole. Penso que seria melhor nos separarmos, talvez, quem sabe? De longe eu poderia vê-la melhor. Desconfio que ela tenha os meus olhos...

quinta-feira, 7 de abril de 2011





Viajando alto em meu balão de cores. Pode subir se fechar os olhos bem abertos...

domingo, 3 de abril de 2011






Acariciando a orelha direita do meu cachorro, penso como sou feliz. Não por ter tudo o que desejo, mas por desejar. Não por ser quem sou, mas por ser. Minha mão, o esmalte azul derrapando das unhas, a carícia, o vento em todo lugar. Durante um extenso segundo entre o nada e o tão pouco, eis que surge a deliciosa idéia da vida. Talvez na caverna em que certa vez instaurei minhas pernas esteja muitas das infinitas respostas, eu não sei, nem sei mesmo as perguntas. Pela primeira vez sozinha, eu e meus lindos segredos na novidade em fazer companhia a mim mesma e a meus amores e medos. Observar o quadro pintado pelas impacientes mãos de Pollock e por mim consentido, ter morado e namorado esta imagem algumas vezes e entender o motivo. A felicidade escondida nos sorrisos da alma que sonha pelos cantos e pelas trasbordantes bordas. Outro amanhã no relógio de bolso, outra vontade de permanecer vivo. Sei quem amo e sei o que quero, mas dos quereres o maior deles é pregar sorrisos nas nuvens e ser feliz durante as tempestades.

sábado, 2 de abril de 2011



Dias como hoje deitam na dura cama incoerente das palavras, com ar de sabedoria adolescente, enquanto dormem plantados na inocência dos sentidos, sugando devaneios sobre bebês de salto alto na busca cega e florida pela felicidade.


Quantas voltas teremos que dar em nosso próprio eixo?


Dias como hoje imploram fuga e mais sorrisos.


Tão perdida quanto um rastro no deserto, penso para onde quero deixar futuras pegadas.


Em dias como hoje, imersa em um turbilhão de agulhas afiadas, concluo: NÃO ESTOU AQUI!


Dias como hoje, entre marte e a morte...


LEMBRETE (para dias como hoje):

Estar mais perto de mim onde quer que eu esteja.