
Mudei-me para a Torre de Babel assim que completei quinze anos de idade e logo pude sentir o cheiro da liberdade pela primeira vez: amargo e doce, intenso e misterioso. Dividia o espaço com muitas outras pessoas que pareciam correr contra o vento e lutar contra as mais novas vinte e quatro horas.
No andar de cima, mais precisamente na porta cento e treze, morava um tocador de tambores chamado Nabopolassar. Não era bonito, nem alto, nem sábio, mas tinha seu charme, talvez por não ter nenhum. Nos casamos dois dias depois de nos conhecermos, e, em quarenta e oito horas, Nabopolassar parecia um Deus saído do Eufrates.
Eu estava feliz e acreditava em liberdade. Mesmo nunca saindo de dentro da Torre, sentia naquelas paredes constantemente renovadas que atingiria o céu em breve, apenas com o esforço dos blocos de pedra. Mas as coisas foram tomando rumos diferentes...
Nabopolassar convenceu-me em fazer parte de um grupo de descolados chamado 'hedonistas'. A intensidade do prazer com que vivíamos era deliciosa e inexplicável. Alcançávamos o céu a todo instante, e ríamos, e caíamos, e tocávamos à beira do Tigre durante seguidas noites.
Passados alguns anos, a vida continuava a mesma, mas eu já não estava mais casada. Nabopolassar e eu não nos entendíamos e estávamos sempre entregues aos nossos costumes hedonistas. Nossa união não fazia mais sentido, não sentíamos mais nada pelo outro, ou pelos outros, e nem mesmo sentíamos.
Chorei durante dias enquanto procurava o lugar onde havia deixado minha intensa e surpreendente felicidade. Procurei em cada canto, em cada fresta, mesa ou porta: nada!
Resolvi, por fim, que me mudaria para a 'Morada da Neve'. Deste momento em diante, começava minha verdadeira vida rumo ao despertar...
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