domingo, 30 de janeiro de 2011

Light My Fire






Ele estava tentando dizer que o tempo era como aquele fósforo que acendia seu cigarro, e que continuava a queimar em tragadas aliviadas, em seguida se espalhava pelo corredor quente, interior os lábios e, finalmente, libertava-se em meio a sopros e lembranças de lençóis de seda. Ele acreditava que o tempo era medido em maços de cigarro. Antes, o tempo vontade. Durante, o tempo prazer. Depois, o tempo alívio. E os três tempos eram um suicídio lento, romântico e turvo. “Não é o cigarro que mata, o que mata é a vida!”, dizia, e pedia outro cigarro a ela. Ele a adorava, ela sempre tinha cigarros em sua bolsa – embora só os tivesse para poder observar aquele homem sorrir e espalhar aquela fumaça embriagante entre frases intermináveis. Eram um casal destes que todos querem ser: ar de mistura explosiva entre segredos e sonhos compartilhados em um dos quartos do castelo, os corpos no tapete entre a passagem secreta e a lareira aos fundos, as tramas impossíveis, o candelabro. Ela o observava como se cada vez que o olhasse fosse a última, um olhar doce e intenso que se estendia até as cores quentes das embarcações marítimas do peito. A almofada. O cinzeiro era o único que podia guardar o tempo e o espaço entre o ar e os dedos. Ele dizia que os segundos são aqueles que antecedem as bitucas. Ela contava os maços restantes e pensava como era possível contar o tempo sem os cigarros. Ele sorria como se explicasse, em meio a tragadas, que o tempo só existe depois que se aprende a cortar o lacre da caixa, e que sempre há algum cigarro pelo caminho para indicar as horas. Ele fumava. Ela voava explorando as bordas daquele homem e esquecia que o vento soprava a fumaça do tempo. Ele ascendia outro cigarro. Eles realmente eram um casal de dar inveja. Mas só por algumas bitucas. Fósforo?

Ela Castiçal




...


E então adentrou uma figura cujo físico era exatamente tudo aquilo que ela achava de mais feio. Onde estava o cabelo? Ela adora cabelos. Seres normais, não, a calça larga, não, não. Ele a olhou, sorriu, aproximou-se. Ela estava embargada, se sentiu invadida com um simples olhar daquela criatura. Relógio no pulso, não. Ele aproximava-se com uma calma torturante. A camisa devidamente mal escolhida, não. Ela queria sumir naquele instante, não sabia ao certo o motivo, queria apenas sumir num estalar de dedos. Ele parou a alguns centímetro da moça. O perfume forte, não, ela não gosta de perfumes. Ele perguntou como ela estava – eles se conheciam -, ela disse, olhando para o quadriculado do chão, que estava tudo bem e deu-lhe um sorriso nitidamente amarelo-cai-fora. Ele é daltônico. Perguntou se ela estava casada, e por um instante ela pensou em dizer que sim (ou havia virado freira), mas a bebida em suas mãos solteiras denunciava. Ele sorriu. Ela rosnava por dentro, aquela figura, não. Ele ousou saber se ela havia mudado de idéia. Ela jamais pensou sobre aquilo, não havia como mudar de idéia, não havia idéia, apenas aquela imagem latejante em sua frente, aquela criatura, não. Ele pegou suas mãos, ela, rapidamente soltou e franziu as sobrancelhas, como se gritasse calada que aquela área é terminantemente proibida para os seres humanos. Ele não titubeou, continuou com sua ousadia extremamente inoportuna e disse-lhe que era com ela que queria se casar. Ela não sabia explicar como aquilo tudo a incomodava, era fora de qualquer plano mental, como se pilhas carnívoras invadissem um oceano de gaivotas, algo terrível, abominável. Tudo isto pela simples presença daquela criatura. Nem nas profundezas mais obscuras de sua imaginação ela poderia imaginar tal situação. Ela queria gritar, aquela figura, não. Quase perdeu a educação, mas preferiu calar-se. Ele colocou a mão no bolso, tirou um presente. Aquilo foi a gota d´água. A moça, sentindo-se um castiçal russo, deu-lhe as costas e foi embora. Aquela figura, por mais que ela pudesse querer entender ou explicar a si própria o motivo, a incomodava além das palavras. Aquela figura a assustava como uma criança no apagar das luzes em uma tempestade. Como isto havia chegado a este ponto sem que ela soubesse ao menos o que dizer? De que maneira aquela figura havia ficado cega? Onde estava todo o mundo? De onde surgia aquele medo e aquela repulsa constante? Por que aquela criatura não a deixava em paz? Ela só queria correr. Aquela figura, não.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Com Pescoço de Interrogação






Ela se perguntava quando isto iria acabar, com a vontade insana de uma abelha no cio de seu zunido. E o zunido ecoava, batia nas paredes da caverna vermelha inabitada e, assim como boomerang, voltava aos ouvidos sem jamais atingir um alvo. Ela estava entre montanhas, escalando os picos de intensidade cósmica - tocava o sol, falava com ele, desembrulhava-se entre seus raios como pacote de dezembro nas mãos de uma criança. Aquecimento global - do tórax ao clímax mais alto entre as nuvens. Tudo fluía ao mesmo tempo em que o sorvete de flocos triangulares derretia. A colher mostrava sua face ao contrário – ou seria este o lado certo? Tanto faz. Os saltos ornamentais das gaivotas, a faziam entrar em êxtase e traziam memórias perturbadoras – ela, intensa, adorava. Quando isto iria acabar? Ela se perguntava e imediatamente esquecia – queria esquecer. Quando isto iria acabar? Sonhava com a resposta certa, ou a mais errada. Quando isto iria acabar? O agora respondia, nunca. O amanhã ecoava pontos de interrogação fluorescentes. E perguntava, atônita, esperando uma resposta do tempo... Mas o tempo estava aberto, fazia sol e ela jogava boomerang enquanto esperava o sorvete derreter. Quando isto. Enquanto isto. Quando isto iria acabar? Era isto mesmo o que ela não queria saber.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Te Chama







antenas paranóicas do depósito de fogão captam os sons do gelo derretendo no casco de uma tartaruga marinha violeta que por sua vez nada dentro de um vulcão prestes a entrar em erupção um cometa em forma de absoluto nada causa uma explosão cósmica entre a paixão enlouquecedora de uma rosa sem pétalas e um cálice azul sem vinho o violino preto arranha teias de pernas brancas e calorosas na parede do cubo amarelado a vontade de radicalizar de uma libélula grita com o monge verde do monte do sabe-se lá o prisma sem lados de dentro pousa na completa programação fora do ar os joelhos dos dedos de moça nas moscas as vespas dançarinas nas telhas de barro o caracol enfeitando a linha sem nó do pão de açafrão a plantação de coisa alguma a chuva a blusa o corpo o pescoço a cama a gota além da chama

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Formidável







Interrompi meu retiro para poder me despedir de meu avô. Antes de embarcar de volta ao mundo, sentei no templo por algumas horas e, olhando para a clarabóia piramidal, acariciei palavras antes de dispersá-las ao vento. Senti uma forte dor entre os seios, lembranças estavam se queimando e vindo à tona entre as nuvens coloridas de minha mente - ele e seu eterno bigode, ele e seu bigode, ele e seu bigode sempre foram uma carta fora do baralho. Lembrei da palavra que mais ouvi de sua boca, “formidável”, repeti em alto som inúmeras vezes. Percebi uma lágrima se formando no fundo dos olhos e ficando de um tamanho que eu não podia suportar – cachoeira. Sorri chorando.
Cheguei ao lugar onde ele estava deitado e sereno. A camisa azul e o bigode. Peguei suas mãos frias, agradeci e dei-lhe um beijo na testa macia. Ele não respondeu. Esperei. Ele não disse nada. Entre nós pôs-se uma madeira maciça - não era mais a porta da fazenda em que eu podia entrar na semana passada. Pensei ouvir um “menina linda”, pensei e ouvi, era este mesmo o nome que ele havia me dado. Sorri. Parti.

...


A não ser agora, enquanto escrevo, permaneci forte e muito feliz por passar minha vida inteira, até aqui, ao lado daquela pessoa formidável – e seu bigode.

...


Antes de viajar, fui vê-lo, e como de costume, saí tirando fotos de tudo e todos. Mas uma das imagens me chamou a atenção: ao tentar fotografar uma formiga lendo um livro, eis que capto aquela figura peculiar - e seu bigode. Chorei, chorei alegre.

...


O amor é coisa rara: aparece e some entre formigas formidáveis. Mas ele fica – ele e seu bigode.


...

tic-tac

Rastros






O apático telescópio telepático telefona transmutando transações intergalácticas entre tramas transparentes. Tráficos entrelaçados de estranhas entranhas de estrelas atravessam trilhas ancestrais. Entro no trem que trago entrelinhas. Traças tremem em outras trezentas travessas transversais. Atrás o tempo tremula. Atrito. Atração através de astros antecipados. Alta tensão.

Retiro


Não, eu não retiro o que disse. Apenas transformo e acrescento palavras engasgadas no fogo do meio do corpo ao meio, às passadas rasas dos últimos minutos que jamais contei.

...

Enquanto venero a árvore de veludo sem cor de hoje, escuto suas folhas triangulares rirem de meus encantos secretos por abismos marítimos. Elas, espevitadas e alaranjadas, percebem as situações que revivo pela milésima vida e fofocam como vizinhas fartas de suas casas e seus portões-bordões bordô. Eu, apertando o silêncio a favor do peito, gargalho, choro e repito cento e oito vezes aquilo que preciso precisar – ar. A grama e seus diferentes tamanhos de amarelo-café, brinca com meus pés, mas eu não sinto – a terra na Terra é único lugar em que não estou. Ouço o pavão – cócegas. As pernas formigam como saúva nova em chamas. Montanhas cativam bruscamente os círculos mesclados do rosto. Curvas. Picos. Já não sei mais onde estou. Ainda escuto as risadas enfadonhas das folhas. Sou um rio, corro pelas margens no ritmo frenético da correnteza de fluídos apaixonados. Paro. Repito. Fecho. Abro. Corro. Retiro. As folhas, elas riem. O pavão.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Fuga.108





Quando caravelas se tornam anjos, o céu pega fogo embaixo da terra que flutua leve no azul celeste de um olho nu que repara, para e ampara a mente que, sutilmente, mente. De repente, a pomba mostra os dentes, enquanto as penas carnavalescas dormem numa quarta-feira de cinza-chumbo. Asas de azaléias caem por mar e ondas se curvam penetrando em terra. Outro terno terreno treme, outra pedra desliza sobre nossas cabeças, outros degraus de trinta e seis graus queimam o inverno que acalma calado o gelo da alma. No chão, espuma de meninos de rua, na cara, a verdade que é nua e que é sua. Se no mundo em que sedentos cedem, anjos se despem e demônios cuidadosamente se vestem, o tecido da pele deve ruir em breve?
Encerra a casca na neve verde do quintal inerte - outra vez te fujo e te encontro na esquina-da-fuga de mim...

sábado, 15 de janeiro de 2011





"Minhas desequilibradas palavras são o luxo do meu silêncio. Escrevo por acrobáticas e aéreas piruetas - escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio."


Clarice Lispector

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011





Descendo uma rua em que subiam plumas, avistei um toureiro enlouquecido dispersando nuvens com seu lenço rosa-triste, enquanto aquecia os fardos com o mais puro e abafado vento que soprava grunhidos da quarta dimensão para os paralelepípedos tortos dos pensamentos interrompidos de outra era. Os movimentos espanhóis daquele homem eram de um feminino floral e intenso; a face, tremula de desperdícios gravitacionais, expressava marcas horizontais de mais de cem mil anos e escondia a mocidade de outrora – semblante conformado e rude de quem se deixou em algum canto de novembro ou outono. Nos ombros, marcas de ferozes mordidas de cadelas sessentonas e famintas – tornará-se alimento calcificado. Ereto, sem perder a pose visivelmente inexistente, olhou-me com o nariz apontado para a galáxia, sorriu como uma trombeta de coral e fingiu reluzir o fosco de seus olhos perturbados; voava, sim, quase despencava com as penas dos ambulantes que julgava pontos incoerentes. Continuei indiferente – mais um ponto para outro conto envenenado -, estiquei o olhar elástico e enxerguei o além daquela estátua em ruínas: uma lágrima desceu de seus músculos, e antes que acenasse convicto de tudo o que deixara por fazer, desapareceu como um touro na arena deserta repleta de pontos de partida. Madrid estava mais clara.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011





"Necessidade de ir
Sair do ar
Cantar
Notar
Sorrir
Parar

Necessidade de voar

Necessidade de necessitar alguém
Ou até mesmo você

Necessidade de morrer

Necessidade do necessário
Do indispensável

Necessidade do contrário

Necessidade de despejar
Desejo de desejar

Necessidade de não achar

Dispensar o desnecessário
Passar a noite em claro

Transpor o hilário

...

Para que assim
A necessidade não acabe

Desabe

Mais

Em mim.”



Origem: três anos atrás...




A incrível relação entre as notas musicais: nós, dós, rés - relação obliqua entre dedos de alguém. Composições de discórdia no ato da harmonia: folia antecipando o carnaval valsado. Tempo. Pausa. Melodia. Dia. Excesso de mis no centro de um acorde - acorde. Fás falsos soam baixo-alto-torto: escape. Desejos de sol. Noites infindáveis de lás. Tudo escondido em si. Nós. Dó. Ré.





- não gosto de ver esta calça aí.

- mas por qual motivo?

- me lembra outra cor que não esta.

- mas teus olhos vivem de lembranças?

- não, de ilusões.





- o que há com este sorriso?

- ele apenas sorri.

- mas o que o faz existir calado?

- sorrisos não são do tipo que falam muito.

- mas o teu sorriso é tão silencioso...

- este mudo é infinito. as palavras, elas se perdem.

- mas são sempre palavras.

- pois: sorrisos não são sempre sorrisos - muitas vezes são disfarces.






Vida louca, sempre pregando peças: se antes ainda é agora, qual a pressa que me levou ao começo? Se posso enxergar outros caminhos neste presente, como devo deixar as marcas dos pés na estrada do que passou? Quem vai apagar? O vento? Justo este que me trouxe até aqui? Ah, ventania de sanidades! Como posso tentar me perder quando me achei? Como posso calar outra vez aquilo que é silêncio? Eu não sei, eu não quero mesmo saber... Nesta es(calada) aprendi a ouvir minhas montanhas, e isto é... só(L).





Qual a novidade do mundo agora? Que tudo deve girar como um peão de anteontem? Existe regra para ser de verdade? - Bom, esta última pergunta é inútil.
Tremo de vontade de arrancar flores do peito, tremo, mas não posso ferir o lindo jardim que construí com tanta imaginação. Sinto cores embaçadas, mas não posso apagar este céu que custei a enxergar. Presumo que os jardineiros do além insistem em entrar em ação - podem seguir, pequeninos -, mas esta parte dos arbustos é alta como aquilo em que não se acredita com os olhos.

Do Meu ALTER EGO Para Mim









"Você, personagem de Clarice:
Mulher, meninice.
Você, ar de Sampa, eu baianice:
Meu peito insiste.
Você, meu eu que existe:
Criança que não finge.


Você assiste...

Anseio
Creio
Seio
Meio


Você, meia noite triste,
Meninice,
Cadê você?
Vejo - Viste?


Insiste
Teimo (seio)
Tenho (venho)
Menina Clarice.”





...um presente...

sábado, 8 de janeiro de 2011






Decidi me deitar mais cedo hoje, tomei um floral que resolvi aderir aos meus costumes até aprender a despistar a insônia, coloquei um som bem baixinho, acendi um incenso, abri bem as janelas e fui, feliz. Dormi. Algum tempo depois – meio dormindo e meio acordada – abri os olhos e vi na parede um pontinho verde fluorescente: não, eu não bebi, não usei drogas e nem afins. Não é a primeira vez que vejo este mesmo ponto na parede, tudo começou em uma casa de praia alguns anos atrás – mas isto não vem ao caso. O fato é que este ponto me intriga ao ponto de já ter me questionado várias vezes sobre a linha inexistente: imaginação/real. Logicamente que para as pouquíssimas pessoas que resolvi contar, a reação foi a mesma: “Pirou!”. Enfim, pirada ou não, aquele ponto me persegue e quer me dizer algo (inconscientemente, que seja). Agora, o que será que isto quer dizer? Realmente não sei. Talvez coisa alguma, apenas aparece para que eu tenha certeza que minha bolha de imaginação e luz possui cor e forma no plano físico – e me acompanha onde quer que eu esteja. Também pode ser que só seja um pontinho perdido no espaço e que eu tenho o privilégio de contemplar. Ainda sobra a hipótese do “pirou”, o que me faz ficar muito contente, afinal, ir um pouco além dos sentidos mundanos é divino. De qualquer maneira, continuo esperando a próxima aparição de outro ponto na parede. No mais, perdi o sono e terei que retomar o “ritual da cama” do começo. Ponto.




Devo confessar que hoje eu ando, falo, penso, sento, deito e tudo faço meio-totalmente desligada.
Assim como ontem e...






Hoje foi dia de encontrar alguns amigos que não vejo faz muito tempo – dois anos, ou talvez três. Todos muito mudados: uns mais sérios, alguns mais chatos, outros mais felizes e assim por diante... Neste encontro foi combinado que além de cozinharmos juntos, devolveríamos objetos que havíamos esquecido na casa de algum dos presentes, desta maneira, acabamos em uma espécie de “amigo secreto de devoluções”. Ninguém lembrava exatamente o pertence que iria reaver – o que fez com que a tarde fosse cheia de surpresas e diversão garantida (piegas)! Confesso que eu estava ansiosa para saber o que havia “perdido” (já perdi tanta coisa), mas logo uma amiga com ar de riso e olhando fixamente para mim começou seu discurso: “São seis cds, ou como ela mesma diz, discos...” – claro, era minha vez! Dei-lhe um abraço de saudades e vagas lembranças de discos perdidos, abri o pacote: lá estavam as seis circunferências musicais. Examinei cada um deles com o cuidado de recordar as últimas vezes que havia escutado, em que época, o que eles me diziam e por aí vai... Mas um deles – o último para ser mais precisa – me chamou atenção: neste momento da minha vida o escutei mais vezes que antes e ele fazia mais sentido agora. Parei – perguntaram-me em que eu estava pensando – sorri, agradeci, procurei o duende do acaso: ele não estava lá. Chovia.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011






Muitos questionamentos hoje – muitos. Não meus comigo mesma, mas das pessoas em relação aos meus pensamentos e sentimentos. Como se pode explicar uma sensação ou uma idéia? Simplesmente é, ou não é. As pessoas complicam tudo e, ao invés de aceitarem outras opiniões e diferentes formas de viver, querem que o planeta (quiçá o universo) faça tudo como “deve” ser feito – este dever inventado por babaquices sociais e açucarado pela falta de opinião própria! A liberdade aparece cercada por indivíduos que vivem com medo dela – pássaros engaiolados na comodidade de uma rotina de “conformes”. As perguntas estão erradas e as respostas são mecânicas. Quem quer saber o que não há de ser sabido? Quem tem tempo para perguntas sem essência alguma? Quem teme a liberdade, o amor, a paz? Quem quer te prender nesta cadeia de iguais? Quem quer ter razão?
Poucos são os que querem mudar o mundo, a maioria quer moldá-lo.





Constantemente entre o espelho e o olhar, tentando procurar o que a imagem ilude. Não, as pessoas não vêem a si próprias no espelho, apenas enxergam nitidamente aquilo que lhes convém. A beleza, a feiúra, a idade, as olheiras: imagens plásticas de parâmetros criados por carcaças sem valor. O espelho. O espelho é lindo, o espelho é mágico, mas acontece que as pessoas se esqueceram dentro dele.





As pessoas não gostam da minha mania em falar com quem escreve e vende livros na rua. O fato é que eu, independente do conteúdo inserido nas páginas, os admiro e ponto. Também devo dizer que aqueles que se incomodam com essa minha atitude, não me incomodam em nada – o problema já não é meu. Enfim, encontrei um senhor escritor e, como de praxe, começamos a conversar. Ele, diferentemente de sua aparência, era de uma extrema e extraordinária delicadeza mental. Comentei sobre algo que estou escrevendo, e então ele me deu uma dica - apenas separando sutilmente uma simples palavra - que me fez ter vontade de continuar a escrever. Naquela hora, descobri a verdadeira essência do que venho fazendo – palavras alheias escolhidas penetraram meu pensar.
Enquanto eu viajava na conversa do dito “maluco”, os sãos se embriagavam e cuspiam palavras desconexas ao vento. E então eu concluo com meus coloridos botões desabotoados: se todos doassem pequenos minutos de ouvidos aos que tem algo a dizer, o mundo seria, no mínimo, uma panela esplendorosa de insights.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011






Tudo, árvores, tudo, calçadas, livros, estradas, brincos, flores, tudo, lâmpadas, camisas, gravatas, mãos, aviões, paralelepípedos, paredes, tatuagens, armários, chaves, pregos, maçanetas, tudo, todas as coisas de tudo e nada de coisa alguma: tudo sorri o mesmo sorriso.
Fecho os olhos – o escuro sorri.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011






Estar nalgum lugar onde as gotas de chuva acariciam folhas de todos os tons de verde, onde o pensamento flui num incansável voar calmo e sereno, onde o tudo é paz de espírito e onde o coração não tem medo do pulsar tranquilo das horas que pairam em outros espaços aveludados. Estar consigo, entendendo, sorrindo, brilhando, aceitando o ser do próprio ser, navegando sob estrelas de toda cor, olhando aquilo que faz o bom recordar, trazendo pra si a felicidades de simples atos, compartilhando com o universo as verdades do próprio e gigantesco universo particular. Agradecendo. Vivendo. Respirando fundo. Deixando o rio deslizar na pele, imaginando desenhos de margens, soltando os braços na correnteza que leva – deixando-se levar. Vivendo. Amando aquilo que ama, pensando aquilo que pensa, fazendo aquilo que faz. Vivendo. Sutilmente vivendo. Intensamente vivendo. Uma luneta procurando segredos do céu de olhos que vão e vem em mente, um estar contente. Vivendo. Criando. Tendo a certeza cada vez mais nítida daquilo que constrói o mundo dos sonhos reais. Vivendo esta vida que agora é única – unicamente encantada pela essência do amor que transforma a nuvem em chuva, a chuva em nuvem, o querer em querer, o viver em estar vivo – viver. Vivendo. Sonhando em voz alta. Gritando o silêcio. Voando. Girando. Vivendo.



cuidando do meu jardim no planeta não-terra.





A montanha onde me encontro, encantou meus pensamentos, penetrou nos meus sentidos e no que ela diz chamar “infinito”. Em uma longa conversa entre nós, flores e folhas caídas de altas árvores, salpiquei versos intitulados “verdade”, para tentar entender de onde o nada vem do nada e pra onde ele vai. Enquanto o mundo dava voltas sem que eu percebesse, gotas de pura e lúcida insanidade se instalaram nos meus “não sei” e trovejaram nos meus casuais “pode ser”. A lagartixa azul-brilhante, que tremia como antigas mãos cansadas de velhas costureiras de bordel, escrevia uma carta em meus ombros, apenas pra dizer que o mundo é lindo e ludibriante, mas tudo não passa de ilusão tátil - as verdadeiras coisas entre o espaço e a gravidade não morrem e nem mesmo se escondem. O mundo continuava girando, e eu, já de cabeça para baixo, brincava de adivinhação com uma montanha troiana no parque de distrações astrais. Sentia-me conectada com luzes e discos (voadores) que me ditavam os segredos das próximas horas. Próxima a mim, eu mesma, o espelho, as verdadeiras formas dos dez mil sentidos, o medo que sentem os raios com seus próprios suspiros de energia mágica. Nem todo mundo é mundo, nem todo mundo é nosso, nem todo mundo sabe de outros mundos. Penas caindo, que pena! O ganso acenava como se soubesse que aquele olhar eterno entre nós nunca morreria – sábio pássaro tolo. As cores estavam todas lá e desenhavam todos os pontos da linha invisível dos amores, das saídas, das portas, dos astros e estrelas cadentes. Tudo ali, na montanha onde me encontro - e te encontro e nada encontro - tudo já sabido, e gritava baixinho a importância de saber sentir e mentir os corações que nunca, nunca morrem... Nem param de pulsar na montanha onde me encontro com a eternidade de um invisível planeta chamado “Silêncio”.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011





Minha mãe está a reclamar com ar de risos:

- Isabela, ou você está escrevendo, ou com o fone, ou ouvindo música no quarto, ou lendo na sala, ou vendo filme... Para nos falarmos é preciso senha? Estou achando que moro dentro do projeto “Psiu!”.

E então aparece com tampões de ovidos:

- Pronto, agora vamos viver neste teu silêncio... Juntas!



Descobriu, por fim, que a pausa no tumulto é solução...





"Que voz vem no som das ondas
Que não é a voz do mar?
E a voz de alguém que nos fala,
Mas que, se escutarmos, cala,
Por ter havido escutar.

E só se, meio dormindo,
Sem saber de ouvir ouvimos
Que ela nos diz a esperança
A que, como uma criança
Dormente, a dormir sorrimos.

São ilhas afortunadas
São terras sem ter lugar,
Onde o Rei mora esperando.
Mas, se vamos despertando
Cala a voz. e há só o mar."



Fernando Pessoa





"Domingo irei para as hortas na pessoa dos outros,
Contente da minha anonimidade.
Domingo serei feliz — eles, eles...
Domingo...
Hoje é quinta-feira da semana que não tem domingo...
Nenhum domingo. —
Nunca domingo. —
Mas sempre haverá alguém nas hortas no domingo que vem.
Assim passa a vida,
Sutil para quem sente,
Mais ou menos para quem pensa:
Haverá sempre alguém nas hortas ao domingo,
Não no nosso domingo,
Não no meu domingo,
Não no domingo...
Mas sempre haverá outros nas hortas e ao domingo!"



Álvaro de Campos

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011





"Escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível.
Fixava vertigens.
Criei todas as festas, todos os triunfos, todos os dramas.
Tentei inventar novas flores, novos astros, novas carnes, novos idiomas."



Arthur Rimbaud



"Sim, hoje é um dia feliz.
Será, não será, por certo
Num princípio não sei que
Há um sentido que me diz
Que isto — o céu longe e nós perto
É só a sombra do que é ... "


Fernando Pessoa

Flor NO Asfalto




o tempo
dos passos
o vento
sem traços

semente
nova cresce
surpreende (se rende)
e adoece

o medo
nos vasos
o seio
entrelaços

ausente
velha prece
nascente (não sente)
e esquece



Definitivamente não é a convivência que nos torna parecidos com outra pessoa. É outra coisa...

...

Estava escrevendo algo e me ocorreu passagens em mente – palavrinhas tornam-se sem sentido perto de silêncios maiores.
Eternas comparações, Deus!
Vou sossegar os dedos por alguns instantes. Calar. É mesmo o que tenho feito...

...



A chuva só me molha de boas lembranças e divinas sensações. E eu tanto gosto de dela, tanto...

domingo, 2 de janeiro de 2011

Niente Pode Ser Tudo




Para despistar a insônia, deito na cama e começo a inventar coisas, mas minha cabeça vai indo além e se passa de um certo limite entre a porta do pensamento e a placa indicando o caminho do sonho, preciso levantar e escrever. Com a chuva, claramente a cama tem mais potencial, mas de qualquer modo a enxurrada de pensamentos é mais forte. Levanto, escrevo, tomo um copo de água (ou cinco), vou olhar as gotas de chuva na árvore porosa em frente ao quarto (ela faz do caule uma espécie de córrego vertical), escrevo mais um pouco, esqueço metade do que havia pensado, apago outra metade, canso a vista e pronto: lá estamos nós em uma péssima transa, eu e a insônia – e como ela me sufoca! Coloco um filme (nesses últimos tempos tenho feito um estoque deles a cada dois dias), abro as janelas (prefiro vento e pernilongos ao abafado), apago todas as luzes, me jogo em seis ou sete travesseiros e tenho a doce ilusão de que em certa altura meus olhos irão se fechar – mas que beleza! Embora o sono esteja de mãos dadas comigo, a atenção não consegue pensar em absolutamente niente: o mar lembra o poema que li no livro do cachorro da vizinha que piscou os olhos na mesma hora em que espirrava – tudo no mar, é claro. E assim a noite rola no lençol das pestanas espevitadas...
Tudo certo, não posso dizer que não exista uma bela diversão neste arrastar de ponteiros, mas o engraçado é que isto acontece sempre que estou sozinha - se eu estiver com alguém (não necessariamente na conotação homem-mulher, ou o que preferir) durmo extremamente rápido. Enfim, talvez eu não queira deixar os alheios malucos, talvez goste de companhia ou talvez as pessoas me dêem sono. De qualquer maneira minha vista está cansada e um filme me espera. Ou será que eu ligo para alguém?

A Verdadeira Idade do Mar





Acabei de lembrar que em menos de um mês faço vinte e cinco anos, então me toquei o quanto minha vida é diferente do padrão das pessoas da minha idade. De qualquer modo, isto não me surpreende (sempre foi assim), mas devo confessar que me assustei um pouco ao retomar minha estrada nos últimos anos, meses e dias - susto este de alívio e perguntas. Logo, tive o impulso de começar a escavar meu campo de percepção na incessante procura por respostas... Parei! Será mesmo que este assunto precisa ser questionado nesta altura do campeonato? Todos somos diferentes, afinal. Certo, existem diferenças mais sutis e outras bruscas e visíveis, mas somos todos seres únicos - e isto é o que torna a vida uma curiosa graça. Não há perguntas, não há. Sempre levantei a bandeira da liberdade do indivíduo e deste modo segui meus sentimentos e instintos naturalmente, em suma: hoje estou aqui, exatamente onde minhas ondas me colocaram. E quantas tormentas, quantas marolas, quantas ressacas, quantas embarcações, quantos peixes e algas e sais e raios e marés... Vinte e cinco, e um oceano que varia constantemente seus graus. Vinte e cinco, e uma leve impressão de que a idade do mar pouco importa perto de sua imensidão.

"Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente..."




Fernando Pessoa

sábado, 1 de janeiro de 2011





"nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas"





e. e. cummings