
Trinta e três era sua idade, os cabelos grisalhos não eram consequência genética. O nome dela era Elisa Jabuti. Todas a manhãs, religiosamente (diga-se de passagem, antes de se tornar mímica, Elisa queria ser freira), levantava pelo lado esquerdo da cama e, antes de qualquer pensamento ou escovas de dentes, corria a passos largos até a sala para conferir se o jornal estava debaixo da porta. Elisa assinava um jornal desconhecido que contava os fatos apenas em figuras, nenhuma letra pousava nas páginas bege-tartaruga daquele objeto informativo. Elisa brilhava ao vê-lo, ali, paradinho e retangular. Em seguida, com seu jornal debaixo do braço direito, flutuava até a lavanderia, abria a máquina de lavar, colocava uma xícara de sabão em pó verde-azeitona, atirava o jornaleco além da tampa e ligava a máquina na opção “roupas brancas”. Passava exatas três horas olhando fixamente o girar constante da sua poção e, vez ou outra, uma das figuras grudava no vidro meticulosamente limpo. Quando isto acontecia, Elisa rezava três vezes o terço roxo que guardava no pescoço, dava sessenta e três pulinhos (um com cada pé, alternadamente) e saia para a rua.
Elisa morava entre a torre dos guardas cafetões e a famosa rua das pias. Jamais se dirigia ou ousava olhar para o lado dos guardas, eles poderiam confundi-la e isto seria a ruína da família Jabuti. A moçoila contava os trezentos e três passos (e um terço) até a loja dos objetos aflitos, acenava com os cílios para a balconista, subia em um pedestal de trinta centímetros e observava lentamente os objetos em promoção (normalmente eram os rádios estridentes ou as antenas faiscantes). Elisa escolhia aquele objeto que menos a agradava e começava sua mímica. Se, por ventura, algum cliente adivinhasse qual o “objeto do dia”, Elisa ganhava um pingo de uva – ela jamais havia deixado de ganhar seu pagamento, Elisa era boa no que fazia. Sempre contente e saltitante, Jabuti refazia os trezentos e três passos (e um terço) até sua casa de três andares, lavava impecavelmente sua máquina de lavar, comia três colheradas de açúcar mascavo e dormia. Seus roncos atravessavam o quatro de três em três minutos.
No dia três de março, dia em que sua cidade comemorava a guerra dos trinta anos perdidos, Elisa acordou, saltou pelo lado esquerdo da cama e correu para a porta da sala. O jornaleco, pela primeira vez, não estava lá. A moça não soube o que fazer ou dizer. Pensou em mímica, mas logo percebeu que de nada adiantaria. Onde estaria seu jornal? Por qual motivo ele não estava lá, na fresta da porta? Com um impulso de coragem, Elisa abriu sorrateiramente a porta para conferir se o objeto não estava do outro lado (quem sabe?). Não, desta vez ele não estava em nenhum lugar. Voltou para a cama...
Elisa, desconsolada, olhava para o teto do quarto amarelo-pimenta e ouvia as trombetas vindas do festejo na torre dos guardas cafetões. Resolveu ir até a janela para fechá-la e tentar dormir. Ao olhar para a rua, crianças carregavam bexigas coloridas e muitas pessoas seguravam cartazes que diziam “Viva a vitória. Rumo ao novo ano de dois mil e sessenta!”. Elisa pensou não enxergar bem, olhou mais uma vez e lá estava a mesma faixa com os mesmos dizeres e a mesma data.
Elisa já estava com noventa e nove anos – o tempo havia triplicado sem que ela percebesse. Foi até a máquina de lavar. Não havia mais jornal. O tempo, o tempo havia girado para fora de seu tempo. Elisa estava grisalha, suas mãos eram de uma senhora muito velhinha. Tentou outra mímica, desta vez reproduzindo a si própria. Olhou o relógio, o tempo passava, e com ele, Elisa. Elisa passava de três em três segundos. E quantos três ela ainda haveria de contar? Ela não sabia.
Era uma vez a Elisa, e não três.