sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

CINEASTA A SETE CHAVES






Comprei uma caixa de chicletes de morango e decidi que queria ver um filme. Fui até a locadora e comecei a vasculhar as prateleiras. Sempre vou nas mesmas (ou na mesma), mas desta vez eu não sabia ao certo o que meu íntimo queria assistir. Escutei um som que saiu de dentro do meu ouvido: passos de sapatos de salto em um chão especificamente de mármore. Pronto, eu queria um filme com este som. As imagens foram surgindo aos poucos, frias, gélidas, ambiente monástico, espartilhos, chaves enormes e pesadas (adoro chaves antigas), lareiras, tranças, trancas, homens de cabelos até os ombros... Por um instante fiquei em dúvida se queria ver um filme ou estar nele. Logo depois tive certeza que queria mesmo é estar nele. Enfim, procurei entre as caixinhas de plástico um lugar como aquele, onde encontraria aquelas pessoas e aquele som de corredor comprido. Passei por vários filmes que pareciam me vender tal sensação, mas nenhum que fosse mais interessante que a situação impregnada em minha imaginação. Voltei ao carro com as mãos vazias. Qual seria mesmo a graça de um filme, se ele já estava passando pela minha cabeça com imagem nítida e até cheiro? Nenhuma. Deste modo já estou entretida por horas, entrando por passagens secretas, jardins intermináveis e corredores misteriosos. Estes filmes, definitivamnete, são os melhores. Pipoquinha?

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

OÁSIS NO QUASAR






Na galáxio do 'Sim'
O sinal do quasar
Centro de mim
Astro a pulsar

Nas mãos, o céu
Ao chão, o véu
Os olhos nus
Os anos, luz

O complexo ao fim
Sem nexo no radar
Cometas pelo jardim
Céticos ao mar

Os pés ao léu
Na mente, o réu
Desejos em zoom
(In) vento algum

Pactos, cactos
Telecomunicação
Rastros, mastros
Adaptação

Factos, actos
Adivinhação
Fractus, tactus
Alucinação



Não há dúvidas, ele está aqui...

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Entre Órbitas




Durante este ano (e um pouco mais), só “tive” uma pessoa. Uma só. Uma que fez com que todas as outras ficassem invisíveis ou sem graça. Pensar nela me fazia sentir melhor que qualquer outra coisa. Pensar, só, imaginar, flutuar. Pode parecer bobagem, mais não foi. Nestas viagens por aquela órbita, decorei a exata cor das estrelas, o tempo que levavam os raios de sol até os meus olhos, as palavras dos cometas e muitas outras coisas incríveis. Aprendi muito sobre o espaço. Durante todo este tempo fui muito feliz, acreditem. Pode soar loucura, mas foi mesmo tudo muito louco – indiscutivelmente louco. O caso é que aquilo tudo fez com que eu mudasse, como se, a partir de dado momento, o mundo passasse a ter outros tons (muito mais bonitos). Não sei explicar como (não conheço palavras para isto), mas sei que foi. E tem sido. E mesmo com tudo e por tudo, ela continua sendo a única. As cores, mesmo ficando turvas, vez ou outra, ainda têm aqueles tons inigualáveis. Eu não sei como tenho conseguido lidar com toda esta beleza estonteante e surreal, eu não sei. Mas devo ser sincera e confessar que, enquanto o relógio escorre e as formigas dançam loucamente entre as árvores azuis, minha mente foge de mim e mora um pouco noutro lugar, onde ela está. Está tudo bem: chove, faz sol, anoitece, amanhece. A vida parece correr em seu ritmo natural. Está tudo bem, e estes tons do pôr do sol são uma dádiva por agora. Está tudo bem nesta poltrona entre longas memórias de risos fáceis e teclas quadradas. Está tudo.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Das Naves, Das Aves e Das Nuvens.






Eu sou mesmo boba, uma criança brincando de esconder me mim mesma. Eu até tampo os olhos e conto até dez antes de sair, ou até mil, por vezes perco até as contas. Eu sou mesmo assim e o que eu posso fazer? Correr, eu corro, mas não importa para onde eu vá, o lugar está sempre aqui. Tentei as bolhas de sabão para ver se me distraio, mas quando as vejo planando no céu, fico boba outra vez – o sol. Sou mesmo desta forma sem fórmulas. Outro dia foi a vez de jogar boliche, mas ter como oponentes aqueles pinos me fez chorar. Saí pela canaleta esquerda, cantarolando uma canção das mais sem graça (para que ninguém percebesse que eu tremia). Não adiantou, eu sou mesmo boba. Boba no mais puro sentido da palavra: boba e só. E só. E nesta brincadeira de me encontrar eu acabei me encontrando. Mas lá eu não sei chegar, e isto não é bobeira. Talvez eu tente as pipas, elas estão mais perto das naves, das aves e das nuvens. Mas eu sou boba, sou mesmo boba, talvez seja melhor plantar bananeira. Quem sabe de cabeça para baixo as coisas façam mais sentido. Minhas pitangas, preciso delas. Chove por aqui e é isto que eu sei. Fico boba olhando as gotas se espalharem pela amarelinha e se espelharem em meu rosto. Eu sou mesmo boba, simplesmente boba, isto é, só.

Convicta Contradição






"As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras."

Friedrich Nietzsche





Se decepcionar com alguém é se decepcionar consigo mesmo, e isto é pura e absoluta consequência da intensidade com que se vive. E não me venha com hipocrisia dizendo que sabe o que a palavra ‘intenso’ significa, se não enxerga a nitidez da frieza nos atos calculados de certos humanóides. E isto é tudo. Não quero saber dos conselhos de qualquer um e acho que tudo o que se "pensa-sentir" em massa uma inutilidade sem tamanho - embora reconheça que a ‘intensidade’ seja uma delas (mas esta é espontânea). Sentimentos não são coletivos! E que saber? Contra tudo aquilo que venho aprendendo, acho que eles são o combustível da alma, e mais, acho que são um poço de sabedoria: se entregue, um pouco, e verá. Não é fácil, não é fácil ser desta maneira - quem disse que seria? Na verdade a vontade insiste que mandemos tudo às favas para nos pouparmos de outra queda livre, mas não tenho medo de abismos – talvez do eco, mas este é meu medo de mim. Creio que ser jovem (e mais alguma coisa) facilite minha constante caída rumo ao nada, mas como dizem (óh contradição!): "já estou calejada". Sou a completa verdade daquilo que sinto e não me arrependo em absoluto. Talvez quando o peito dói, mas logo passa, então está tudo certo outra vez. Ainda acredito nas pessoas, ainda acredito em tudo aquilo que elas têm jogado fora, ainda acredito nas palavras e ainda acredito que é preferível abrir a alma e sofrer, a calar-se e inventar desculpas eternas a si, se deixando aos poucos em algum lugar sem espaço. Claro, se decepcionar com alguém é se decepcionar consigo mesmo, afinal, no fim das contas, o amor que tanto se discute só vive em nós, e não dos outros. Cabe a eles apenas ser como lhes convém. A nós, cabe a escolha entre ser ou fingir ser. Talvez acreditemos em nossas mentiras por completo, e talvez o amor seja a maior delas. Mas enquanto ele mora aqui nesta casca ainda muito sonhadora, vou ser fiel (somente) à ele. Quem sabe no próximo abismo não se esconda a solução? Enquanto isto, vou olhando no espelho e repetindo aquele velho mantra “Eu lhe disse...”.





"É preciso sofrer depois de ter sofrido, e amar, e mais amar, depois de ter amado."

Guimarães Rosa

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Transbordar







Às vezes, acordo com a sensação de que o coração irá transbordar a qualquer segundo. Um peso delicioso no peito, como se durante a noite, enquanto sobrevoava por outras paragens, algo ali dentro houvesse tomado proporções homéricas. Sentimento pletórico. Aperto que faz ter certeza de que existe mesmo o tal do amor, ou mais, que amar é o nosso presente a nós mesmos. Às vezes, não todos os dias e muito menos a todo o momento, assim, quando menos se espera, o despertar chega com esta surpresa transcendental. O que pode ter ocorrido noite adentro? Algo aconteceu enquanto os ponteiros desregulados do sonho giravam, calmamente, em um tempo e espaço entre a mágica e o mistério, além do que se sabe ou o que se viu, além de si, além, muito além de nós. E não há no mundo quem diga que isto é pura e insana invenção da mente, não há. Que seja invenção, é do coração. E que seja insano, seja louco, seja intenso, mas que seja. Tenho cultivado estas sensações, meu jardim já está repleto delas, todas de uma cor única, forte e reluzente. Às vezes, quando o sol bate na janela e meus olhos se abrem, todo o encanto do mundo parece estar festejando dentro do meu peito. E é lá, dentro deste jardim sempre em festa, que eu me encontro, regando rosas transbordantes enquanto sinto, bem fundo, cada pétala daquilo que amo.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Do Seu Jeito








Eu adorava o jeito dele, mas adoro mais agora. Talvez não goste tanto, quem sabe eu não goste de jeito nenhum, ou não goste de jeitos, mas dele, qualquer jeito é um jeito que me faz gostar de jeitos. Enfim, o fato é que hoje acabou a luz, e então eu resolvi sair - talvez se a luz estivesse aqui eu sairia da mesma maneira, não sei. Encontrei cinco amigos, todos atores de teatro, o mais novo deles, uma linda e morena mulher, passeia por seus cinquenta e seis anos. O lugar era agradável, as mesas limpas. Um whisky pela metade enfeitava a mesa, dei um gole “Por favor, um Sex On The Beach!” Falávamos sobre qualquer coisa, qualquer moça, qualquer livro, qualquer viagem... Eu estava distante, constantemente saindo da mesa e observando a lua (cheia) - realmente deslumbrante. Vestia um casaco de couro que guardava um maço de cigarro de menta no bolso esquerdo, mini saia preta e um sapado velho de guerra. Ensaiávamos uma peça cotidiana, estava tudo dentro das marcas, das falas, dos passos. Estava tudo. O jeito dele. Ninguém tinha o jeito dele. Como seria mesmo o jeito dele? Eu imaginava, não certa, mas certeira dentro das entranhas da idéia. Em meus ouvidos ventavam perguntas, e eu as respondia sem saber o que estava pronunciando. O jeito: para o tempo não há jeito. O vento, às vezes, sopra cruel no barco de nossa face insana de papel. Que jeito? Seríamos felizes. Somos alguma coisa deste tipo. O garçom era gentil, sempre disposto a esvaziar o bolso alheio, um senhor simpático com gravata borboleta. Borboleta. Eu usava relógio, havia prometido que usaria, mas ele estava parado. Não fiz a barba (ela não cresce), mas estava impecavelmente desalinhada. A conversa fluía, eu ria, acenava com a cabeça, dizia duas ou duzentas palavras e me calava. Este é meu jeito. Eu estava lá (ou não estava) - normalmente eu ando não estando onde estou. Pedimos algo para comer, alcachofras. Eu adoro alcachofra! Detesto esta palavra, mas adoro seu gosto denso. Comíamos (sem fome) e degustávamos partes da conversa entre a textura do alimento e o áspero aroma da fumaça. O jeito. De qualquer jeito desejei que aquele jeito estivesse ali: é dele que eu gosto e agora este é o jeito. Procurei a chave do carro entre os copos, me despedi daqueles pares de sonhadores olhos com uma frase que os fizeram rir (não me lembro qual), beijei um a um os rostos da mesa, deixando o mais charmoso por último e parti. Qual o jeito? O jeito é agradecer por saber sentir que, de um jeito ou de outro, tudo está aqui. Mesmo de nenhum jeito. Mas alcachofras, estas eu preciso comprar de qualquer jeito.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

VAPT






Resolvi sentar em minha própria montanha russa, sem cinto ou cadeira estofada. Sentei como quem senta de biquíni em um rochedo frente ao mar. Ao contrário das outras, minha montanha russa começava do alto e para mais alto ela seguia, no ritmo frenético de um canto lírico acelerado. Não havia passageiros, todos preferiram ficar em terra, o que foi melhor – não gosto de gritos e cheiro de medo apitando no ar. Acionei o botão, abri bem os olhos e gritei “avante!” Depois do grito dei uma risada que, mais tarde, soube ter ecoado em Tóquio: quem, com menos de cento e oito anos, diz ‘avante’? O primeiro tranco foi assustador, pude ouvir o barulho da transa entre ferrugens, mas logo em seguida deslizei como dedos de criança em cobertura de bolo de chocolate. Meus cabelos pareciam ser feitos para o ar, as nuvens quase alcançavam meu esmalte lilás, pássaros me olhavam com ar de riso “olhe aquela menina, acha que está voando, mas nem sequer asas ela tem!” Blá, às vezes os pássaros são bem rabugentos! Vinte rodopios! Como pude viver sem isto por tanto tempo? Os cintos de segurança, todos eles eu havia deixado pelo chão “que maravilha!” O trajeto foi impecável, intenso, charmoso, incrível... Mas depois de certas mudanças na posição do sol, terminou. Respirei mágica durante alguns minutos, minha mente estava em êxtase e meu corpo tremia derramando gotas de alegria. Agora eu estava em uma altura indescritível, entre o azul e o preto. O que mais eu poderia fazer a não ser continuar a viagem?
Pois bem, desta forma começaram os meus dias, e desta forma eu os tenho vivido sem titubear. Minha montanha russa é o melhor lugar do mundo, e olha que ainda tem muito mais... Carona? Primeiro tire o cinto. Avante!

Lento Sonho Doce





Aquele reveillon talvez tenha sido um sonho. Não me lembro ao certo o que aconteceu depois daquele amargo que senti na língua. Lembro-me de uma fogueira, uns tambores e dança – eu dançava, disto eu tenho certeza. Vi umas luzes no céu e as olhei fixamente sem piscar durante uma hora (ou três, ou dez). Eu estava longe, não calculava exatamente onde, mas sabia que precisaria de um avião para estar em casa, ou quem sabe um disco voador. O lugar era enorme e cheio de portinhas, de cada uma delas saltava um fluorescente diferente, rostos e dentes muito brancos. Era noite, mas estava tudo muito claro - talvez eu estivesse sonhando. Eu estava feliz como quem chega a outro planeta (sabe esta sensação?). Eu não falei com ninguém, meu corpo estava interagindo com si próprio com muita naturalidade e extrema intensidade, seria impossível pronunciar algo que pudesse ser filtrado pela pele, pela boca, pela voz e pela palavra. Eu não sei ao certo, mas o tempo passava rápido como um caramujo. Eu estava descalça, meus pés pisavam em terra molhada (ou grama, ou tinta), fiz uma fileira de taças (vazias) no chão, uma cachoeira molhava algum lugar não tão longe. As estrelas começaram a aparecer em meus olhos, mas foi o tempo em repara-las, lá estava outro gosto amargo envolvendo minha boca – desta vez vindo de um gole de água (?). Eu não sei, talvez eu estivesse sonhando. Esperei o disco voador por muito tempo – queria estar em casa (ou no espaço, ou na própria nave). Talvez eu estivesse sonhando, mas a vida já não é um sonho? Aquele amargo era doce, era doce como um sonho que quer ser sonhado. Pois é, talvez eu estivesse mesmo sonhando, mas este é o tipo de sonho que não se esquece quando se acorda.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O Meu Ele






Tenho pensado em aceitar todos os convites que venho recusando nestes últimos tempos. Todos! E todos em um só dia. Isto significaria interromper um ciclo importante, ao mesmo tempo que, querendo ou não, dar voltas e voltas no mesmo lugar entontece a visão. Tenho sido muito mulher, estou cansada. Talvez seja a hora de ser mais homem. É, homem. Quero um tempo de mim. Quero coçar o saco, é isto. Esta estrada está tomando rumos não tão agradáveis e meu carro está quase sem gasolina. A neblina está tomando conta, pouco a pouco... Preciso enganar minha sensibilidade por algumas horas e calar a alma por uns instantes. Como é mesmo que eu vim parar aqui? Eu não sei. Desta vez eu quero ser homem - e com direito a gravata borboleta e tudo mais. Quero falar grosso e ter mãos grandes. Preciso pisar na terra, mas não como ‘eu’ (isto seria impossível!), preciso de um personagem: Ele, quero ser Ele. Duas ou três rodadas de tequila, todos os convites, palavras ao vento, calça larga, perna aberta, relógio no pulso - quero ser tudo aquilo que não quero ser. Eu ali, na gravata, e Ele o todo. Quero tratar os assuntos com a simplicidade de um peixe boi. Depois quero acordar, colocar um vestido cheio de bolinhas coloridas, dar risada de tudo, e concluir que o que eu quero mesmo é ser Eu. Mas agora, enquanto aparo minha barba, tenho pensado nos convites: eu e Ele, nada mais.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Segredo






Vou brincar de não dormir. Eu quero brincar (e não dormir). Só gosto das coisas quando tenho vontade – o desejo faz do prato uma ilhota deliciosa de porcelana. Entre os lábios, dois canudos molham a língua com o gosto de outra madrugada. Quero gosto de qualquer coisa, quero gosto, é disto que gosto. Sou entregue ao mundo de mim mesma, sou o que quero ser: intensa, penetrante, viajada, sou coisa alguma e tudo. Liberdade, loucura, falta de medo. Quero o navio, o mar e o marinheiro. Quero a sereia e o descontrole do leme. Quero o pirata e um pouco de fogo para queimar o mapa em seus pontos estratégicos. Quero me afogar antes de respirar entre a superfície e a atmosfera louca de Vênus. Ah, como é lindo aquele alaranjado do mar! Mãos ao alto, eu me jogo além do corpo. Eu vou brincar de não dormir, mas se dormir, quero sonhar. Sou o sonho e a onda dos meus quadris. Quero fúria, férias e calmaria. Quero dizer que quero (eu quero). Sentir o aroma de fruta de alguma região entre montanhas e abismos. Quero me perder e me achar dentro de um dragão chinês. Quero brincar de não dormir. Quero brincar (e não dormir).

Desregular







Este seu medo atrás daquele muro alto e repleto de frases sem esperança, sua mania de madrugar imerso em teias de arranha-céus, seu gesto indeciso de criança diante de um abismo de guloseimas cintilantes, seus verbos inquietantes, sua pinta de sanidade (ou santidade), sua conversa fora de forma. Você e tudo aquilo que te faz você. É você quem eu não amo! Eu não quero ouvir sua voz – ela não sabe entrar em meus ouvidos com a suavidade de uma bailarina lilás. Eu não quero te esperar ao seu lado. Eu não te quero. Sabe? Eu não sou o tipo que quer. Eu não sou de nenhum tipo. Calculo que daqui duas horas você saberá. Sim, saberá! Quando eu tropeçar na escada, diante do seu cadarço cinza, você vai me despir com os olhos enquanto eu te fito de joelhos. Você vai me ver do avesso. Eu não sinto nada. Eu não sinto. Eu não. Sabe? Eu não sou o tipo que se apaixona. Eu não sou o seu tipo. Queria gritar a eternidade nos seus ombros de brinquedo. Queria te deixar surdo entre o meio dia e o meio dia e um. Mas eu não sou o tipo que grita. A água escorre enquanto eu te invento diante do espelho. Eu não minto. Me vejo e te vejo atravessando o trilho de açúcar. Te dou a mão. Te dou o peito sem você saber. Eu não te aceito. Eu minto. Capto o som distante de um disco voador. Eu não te quero. Eu minto. Nada faz sentido. A curiosidade de amanhã na gasolina do estômago. Não existe nexo. Outro raio, outro dia, outros ares. Eu te deixo por mim. Eu minto. Eu me deixo florescer diante do muro. Eu não sei em que gaveta eu guardei meu nariz. Não há porta para lá do reino azul. Eu te assusto. Eu me arrumo. Vou sair para ver o mar ali no céu além do tempo. Eu não sou o tipo que usa relógio.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Inutilidades Entre Um Papagaio Antiquado e Florisbela






Você tem que se casar!

Me casar? Por qual motivo?

Para ter uma família.

Mas eu já tenho uma!

Mas você tem que escolher um homem bem bonito para ter filhos bonitos e se casar.

Ah, que bom! Vou casar com uma estátua grega para ter várias pequenas estátuas dentro de uma casa! Quem sabe eles não possam dormir no jardim?

Não estou brincando.

Não pode ser que fale sério!

Eu falo! Todos formamos famílias.

Com qualquer um? Estou ficando com medo desta conversa.

Não é qualquer um. Alguém que te trate bem, goste de você e te faça feliz!

E eu vou ser feliz com alguém gostando de mim? Mais fácil ser feliz gostando de alguém que não goste de mim.

Mas você acaba gostando com o tempo.

Que tempo? O tempo não me dá tempo para esperar gostar de alguém por conveniência.

Não pretende se casar?

Pretendo. Quem sabe? Nada contra. Mas com alguém que eu ame e divida a vida comigo. Não um touro reprodutor com uma conta no banco. ECA!

Você vive sonhando.

E você vive tendo pesadelos. Não me inclua neles. Esta vida "pra lá e pra cá" é um horror!

Eu sou feliz.

Que bom. Mas não acha muito egoísmo seu achar que TODOS serão felizes do jeito que você é (ou pensa que é, já que desconhece todo o resto)?

Não.

Pena.

Tenho mais idade que você.

E menos vocação para a vida.

Está me insultando!

Eu?

Sim.

Tudo bem. Você está certa! Tá vendo aquele cara ali?

Nossa, lindo!

Então, ele é apaixonado por um amigo meu! Mas me adora. Gosta dos meus vestidos, me entende, me faz rir, tem muito dinheiro e sonha em ter filhos. Ou seja, pode me dar tudo aquilo que você diz que me faria feliz. Que tal? Pra quando eu marco o casamento?

Não dá pra conversar com você, definitivamente.

Que pena! Bem agora que você me convenceu...

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Três






Trinta e três era sua idade, os cabelos grisalhos não eram consequência genética. O nome dela era Elisa Jabuti. Todas a manhãs, religiosamente (diga-se de passagem, antes de se tornar mímica, Elisa queria ser freira), levantava pelo lado esquerdo da cama e, antes de qualquer pensamento ou escovas de dentes, corria a passos largos até a sala para conferir se o jornal estava debaixo da porta. Elisa assinava um jornal desconhecido que contava os fatos apenas em figuras, nenhuma letra pousava nas páginas bege-tartaruga daquele objeto informativo. Elisa brilhava ao vê-lo, ali, paradinho e retangular. Em seguida, com seu jornal debaixo do braço direito, flutuava até a lavanderia, abria a máquina de lavar, colocava uma xícara de sabão em pó verde-azeitona, atirava o jornaleco além da tampa e ligava a máquina na opção “roupas brancas”. Passava exatas três horas olhando fixamente o girar constante da sua poção e, vez ou outra, uma das figuras grudava no vidro meticulosamente limpo. Quando isto acontecia, Elisa rezava três vezes o terço roxo que guardava no pescoço, dava sessenta e três pulinhos (um com cada pé, alternadamente) e saia para a rua.

Elisa morava entre a torre dos guardas cafetões e a famosa rua das pias. Jamais se dirigia ou ousava olhar para o lado dos guardas, eles poderiam confundi-la e isto seria a ruína da família Jabuti. A moçoila contava os trezentos e três passos (e um terço) até a loja dos objetos aflitos, acenava com os cílios para a balconista, subia em um pedestal de trinta centímetros e observava lentamente os objetos em promoção (normalmente eram os rádios estridentes ou as antenas faiscantes). Elisa escolhia aquele objeto que menos a agradava e começava sua mímica. Se, por ventura, algum cliente adivinhasse qual o “objeto do dia”, Elisa ganhava um pingo de uva – ela jamais havia deixado de ganhar seu pagamento, Elisa era boa no que fazia. Sempre contente e saltitante, Jabuti refazia os trezentos e três passos (e um terço) até sua casa de três andares, lavava impecavelmente sua máquina de lavar, comia três colheradas de açúcar mascavo e dormia. Seus roncos atravessavam o quatro de três em três minutos.

No dia três de março, dia em que sua cidade comemorava a guerra dos trinta anos perdidos, Elisa acordou, saltou pelo lado esquerdo da cama e correu para a porta da sala. O jornaleco, pela primeira vez, não estava lá. A moça não soube o que fazer ou dizer. Pensou em mímica, mas logo percebeu que de nada adiantaria. Onde estaria seu jornal? Por qual motivo ele não estava lá, na fresta da porta? Com um impulso de coragem, Elisa abriu sorrateiramente a porta para conferir se o objeto não estava do outro lado (quem sabe?). Não, desta vez ele não estava em nenhum lugar. Voltou para a cama...

Elisa, desconsolada, olhava para o teto do quarto amarelo-pimenta e ouvia as trombetas vindas do festejo na torre dos guardas cafetões. Resolveu ir até a janela para fechá-la e tentar dormir. Ao olhar para a rua, crianças carregavam bexigas coloridas e muitas pessoas seguravam cartazes que diziam “Viva a vitória. Rumo ao novo ano de dois mil e sessenta!”. Elisa pensou não enxergar bem, olhou mais uma vez e lá estava a mesma faixa com os mesmos dizeres e a mesma data.

Elisa já estava com noventa e nove anos – o tempo havia triplicado sem que ela percebesse. Foi até a máquina de lavar. Não havia mais jornal. O tempo, o tempo havia girado para fora de seu tempo. Elisa estava grisalha, suas mãos eram de uma senhora muito velhinha. Tentou outra mímica, desta vez reproduzindo a si própria. Olhou o relógio, o tempo passava, e com ele, Elisa. Elisa passava de três em três segundos. E quantos três ela ainda haveria de contar? Ela não sabia.

Era uma vez a Elisa, e não três.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

ATÉ A MANHÃ







Lá está ela, pronta para uma caminhada calculada em quarenta e cinco minutos contados no cronômetro. Lá fora a garoa. Lá dentro o suor dos fisiculturistas. O som dentro de seus ouvidos torna a visita ao recinto uma agradável viagem pela máquina que faz andar sem sair do lugar. Automaticamente ela começa a pensar e, em três passos, outros lugares começam a se formar...

A paisagem agora era o sol, o sol de chapéu. Lembrou de quando o viu nascer pela primeira vez, embora não estivesse certa do lugar, da hora ou das cores. Sentiu o calor que passava por sua pele, junto ao o vento vindo das nuvens que riscavam palavras no céu. O sol era mesmo como ela imaginava. Sorriu - paisagens como esta a deixam com uma estranha felicidade nos dentes do peito.

Distraiu-se - os minutos corriam como loucos no relógio. Já estava noite, não havia sol e a lua escondia-se entre as luzes da cidade...

O sol, o sol voltava em sua mente em sussurros mudos. Lembrou-se de quando ele se punha - ele sempre se punha quase na mesma hora. O sol e seu chapéu desciam pelas montanhas secretas e dormiam profundamente longe de tudo aquilo que ela conhecia. Ela sempre esquecia de perguntar se ele poderia a encontrar em uma outra vida, em algum lugar em que ele sempre seria sol, mesmo durante a noite. Outra vida, ela esperaria, mas nunca perguntava. O sol se punha.

As pernas estavam cansadas, olhou outra vez o relógio: cinco minutos...

A paisagem escorria por toda sua pele.

Três minutos...

O vento soprava dentro de cápsulas de veludo.

Um minuto...

O sol, o nascer, o pôr, o sol...

O cronômetro apitava. Até amanhã.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Impacto






É ao corpo que o vento chega e é nele que a chuva bate, o sol queima, a lua reflete. É no corpo que mora o mundo. É do corpo que saem as impressões. É do corpo a expressão. É o corpo que sente medo, fome, frio, amor, paixão. É o corpo que modifica, se entrega, deseja, arrepia. É no corpo que sentimos falta. É o corpo que o mundo reverencia, acaricia. É o corpo que respira. É no corpo que a gente vive e se esconde. É o corpo que adormece. É o corpo que quer. É o corpo, é no corpo e para o corpo que o mundo pesa. O mundo, corpo. O corpo, mundo. Um pouco de corpo para a alma sacudir. Um pouco de corpo para sentir o corpo. O corpo no corpo.

Prisma Dos Sonhos






Minha vista estava cansada, fechei o livro e apaguei o abajur. Comecei a lembrar de quando li Siddhartha pela primeira vez - em uma avalanche de duas horas - e então passei a recordar as paisagens que aquele livro havia me presenteado em silêncio, paisagens estas que estavam nítidas em minha mente como se eu estivesse pairado por elas no final de semana passado.

Não sei exatamente o momento e nem quanto tempo depois, mas quando dei por mim, estava em um Templo, meditando em frente a um losango amarelo. Levantei-me, passei por dentro da figura e, assim que meus pés alcançaram o outro lado, percebi que não conseguia respirar. Tentei puxar o ar para dentro do peito, sem sucesso, até que perdi totalmente o fôlego. Atravessei o losango de volta ao Templo – tudo havia voltado ao normal. Tornei a me concentrar e, assim que o susto passou, atravessei o losango novamente. Desta vez, do outro lado, havia um jardim imenso cujo fim era o horizonte e apenas algumas poucas flores pincelavam o mar de tons de verde. Foi o tempo de observar aquela dádiva e logo percebi que não podia respirar. Puxei o ar com toda a força - nada. O lugar era lindo, mas ali eu não poderia ficar por muito tempo.

Retornei ao Templo pelo portal geométrico. Uma senhora de olhos puxados e muito pequena me esperava com apreensão e sabedoria, logo, disse em voz serena: “Isto é a meditação plena. São poucos os que conseguem!”. E mostrou-me a foto de três pessoas que haviam conseguido adquirir este “estado de meditação plena” (três homens de sessenta e poucos anos). Balancei a cabeça como quem agradece os conselhos de um sábio...

Nesta altura comecei a entender que estava sonhando – era tudo como na meditação dos sonhos. Olhei o Templo onde eu me encontrava, contemplei a sábia senhora e resolvi que era hora de acordar.

Espere! Problemas na nave!

Eu não conseguia acordar! Quando dei por mim, estava na cama, no estado de sonho, e não conseguia controlar meus movimentos. A falta de ar voltou e eu me debatia. Não sabia mais em qual sonho meu corpo estava e eu tentava me levantar - em vão. Imediatamente comecei a recitar um mantra que venho recitando várias cento e oito vezes por dia. Incessantemente eu recitava e tentava adquirir forças para ir para algum dos sonhos e sair daquela prisão entre mundos. Nada.

Não sei ao certo quanto tempo depois, mas abri os olhos e pude entender que havia voltado para a cama (que estava completamente desarrumada). Eu respirava. Acendi a luz e olhei o relógio: eram onze horas (ou seja, tudo havia se passado em menos de uma hora). Eu não me importava, eu respirava.

Lembrei-me outra vez de quando li Siddartha pela primeira vez e imagens penetraram minha mente... Mas não eram mais as mesmas paisagens de antes! Agora a memória era outra, muito mais aflitiva e bonita: como se eu acabasse de acordar de um sonho...