terça-feira, 29 de março de 2011






Cabe a mim o doce sonho de amor inalcançável, que não finda, perdura por sequentes vidas até se dissolver na longínqua consciência do desapego. Brincar com sonhos reais que arrastam o peito e os olhos até torturantes ilhas de abraços mentais, fingindo não ver o tempo não agarrável dos segundos gritantes de uma suave lembrança que ainda suspira. Nas velhas cartas, o desejo ardente de encontrar a última palavra no instante em que surge o carteiro. Observar pássaros e correr por entre cachos de uva com o vestido de seda azul feito sob encomenda para os olhos de alguém. Cabe a mim não caber em lugar algum, mas em mim, onde tudo cabe e vive na tranquila paciência do agora para sempre.

domingo, 27 de março de 2011






No além disto, acima daquilo, entre aqui e acolá...





Que lindas histórias contei enquanto dava passos largos no tempo. Que grandes segredos esqueci enquanto amarrava o cadarço do tênis surrado. Nos intervalos da programação, quantos espasmos. A falta de ar quando procurava encontrar a respiração que nunca me deixou. Timbres de voz no silêncio. Ângulos da mesma cena reproduzindo o agora de tantas vezes. O segundo de uma claquete sem nome. Fantasias no carnaval do quarto escuro. Mãos e dedos e mãos e dedos e anéis que se foram. Afinação de um violão sem cordas - trilha sonora de uma solidão cheia de olhos. Palavras exalando um amor que procurava enquanto ele descansava dentro. Grãos de intensidade no virar da ampulheta de emoções. Incontáveis vidas em uma só noite. Uma noite por tantos dias. Um momento eterno, até o aqui que ainda conheço. Um agarrar de mãos abertas. Deixar ir sentindo a raiz penetrar fundo pelo umbigo que divido. Querer sem precisar ser querido. Um olhar que segue além da retina. Palavras que ficam, idéias que vão. Desejos que sorriem e se tornam outros desejos. A mesma coisa, os mesmos tênis. Outras histórias.





Chega o ponto em que a linha não é mais linha. Os fins, os meios e o começo são um só, ou simplesmente um todo cheio de vazio. O ponto não é mais ponto, mas uma idéia de um instante que chega e se vai em uma existência que talvez não exista exatamente por existir. Eu, uma invisível consciência de mim. O amor no ato frágil de ser uma força sem nome. Paciência. Confiança. Sentir e aceitar o que se sente. Sentir muito, mas não sentir muito por isto. Cair e rir. Levantar e rir. Fazer dos extremos malabares de conhecimento. A visão como aliada. Respirar. Deixar o medo vir e ir embora no fluxo dos rios de pensamento. Repousar a mente em água cristalina. Continuar. A eternidade na palma da mão aberta. As asas de uma flor de nós.

sábado, 19 de março de 2011

DO QUE EU SEI






Ouvindo os bordões do quarto ao lado, duas mulheres que se amam e desabotoam seus botões em sussurros. O amor é mesmo lindo. Que seja o peito ou a alma, são as mãos que deslizam delicadamente entre as horas das curvas. Vontades são sinônimo de intensidade. Costurando o ontem no tecido que comprei para amanhã, uma seda vinda de lugar algum, a agulha feita de sonhos e os nós de realidade que foge ao tato. Onde se esconde o começo de uma jardineira? Em pensar naquilo que penso, esqueço e lembro outra vez. O começo dos jardins de mim, desconheço, mas sei do que são feitos. Com as pernas entre o travesseiro e o lençol, o branco se misturando entre as cores do quarto, um quadro que sorri em silêncio, os gritos do disco que gira em torno dos meus sentidos. Sinto muito pela estrada intocável do agora, sinto. Vou voando acima do telhado, com as asas de um coelho e sua cartola, vejo e céu mais de perto. Não faz frio nem calor. Amarelo-você no futuro de dias atrás. Eu, aqui, no passado da semana que se apressa. O gemido do quarto ao lado é feito ruídos de portas que se abrem e se fecham no brincar do vento. Por enquanto é isto que sei: as nuvens chovem e voltam a ser nuvens...

quinta-feira, 17 de março de 2011

Palavras EM Silêncio




Devo constatar que existe uma falta de palavras neste período, o que me parece talvez ser o acúmulo de muitas delas, mas sem nenhuma resolução. No fim, o que pode ser concluído é que sou feita de muitas palavras (que podem hibernar quando assim desejam).
Na minha última viagem, antes de decolar até pousar, escrevi um texto que roubou quase todas as páginas de um caderno. Muitas coisas foram colocadas em pauta e até agora não tive "coragem" de reler. Estou esperando o tempo certo para reatar minha intensa relação com as palavras, e creio que algum carrilhão em minha mente avisará quando a hora chegar.
Por enquanto vou cultivando meus jardins das sensações, na incessante espera por flores cintilantes e chuvas de meteoros negros...

quinta-feira, 3 de março de 2011

Palavras são sons que o silêncio produz...

quarta-feira, 2 de março de 2011

Das Cores da Chuva






Ouvindo a chuva de um dos lado da janela,
Gotinhas delicadas sussurrando para onde vão.
Seria a chuva uma casquinha do universo,
Ou será água errante na contramão?
Quantos passos e postes ali ao lado,
E eu aqui gota por gota.
A vida flui entre rios de memória,
Outra agora, poça solta.
E no vai e vem das tropas de folhas,
Aquele calafrio de outrora...
Das copas o leite dos copos de flores,
Cores que passam e não voltam.

A Terra do Peixe Espada






Não entendia como funcionavam as coisas na Terra do Peixe Espada. Tive que procurar uma concha e telefonar para a Dona Arraia pedindo uns conselhos, mas ela logo disse “Escute aqui, moleca, você vê as coisas com os teus olhos, e essas duas esferas enormes não sabem o quanto precisam aprender a enxergar. Não seja tola, vire-se!” Achei que ela soltaria um “babaca”, mas não foi preciso: estava subentendido. Logo em seguida, tive um surto de pânico, como se o Atlântico fosse eu e nada mais: nenhuma cor, som, estrela do mar, nada de nadica de nada. O que fazer? Resolvi marcar um horário de emergência e fui nadando até o consultório do Doutor Polvofelder. Quando lá cheguei, o Doutor me esperava com os tentáculos abertos e aquele sorriso que só ele tem (decerto ele poderia ser mais feio e menos charmoso, mas não é o caso). Contei-lhe que, na Terra do Peixe Espada, era proibido comer sushi, mas que eu havia me apaixonado por um sushimarlin (que também não comia peixe de modo algum). Disse-lhe que as coisas estavam complicadas, afinal, eu teria que aprender a nadar com as próprias nadadeiras para longe de lá (mas meu coração saltava pela boca e mergulhava entre as Algas Marias do quintal do Marlin). “Como posso costurar este maluco deste coração? Tem linha por aqui?” O Doutor, sempre muito bem humorado, ria das minhas perguntas e dizia “Deixe estar, deixe estar! Siga seu coração, sofra e seja feliz com ele. Estas linhas de pesca aqui são para as Jubarte!” “Este Polvo diz isto porque consegue abraçar o mundo com esta protuberância toda!”, pensava. E lá estava eu, sozinha outra vez, já com o coração sabe-se lá namorando qual das Algas Marias do Marlin. Que rumo eu poderia tomar? Fui nadando borboleta e sem destino, pensando nesta vida aquática de cada dia. “Poxa, eu queria me salvar do maremoto!” Foi então que percebi que estava na superfície, entre marolas, relembrando algumas músicas que fizeram história no Pacífico em 1970. Mergulhei um pouco para respirar e, de repente, lá estava ele, Marlin! “Ah, exímio nadador aquele lá, sem sombra de dúvidas! E que amarelo ofuscante!” Pois é, meus olhos brilhavam ao vê-lo! “Nem ligo que ele não coma sushi, eu gosto dele deste jeito! Ah, como gosto! E devo ser louca, pensaria Dona Arraia, mas eu nem ligo para o que ela pensa! Ah, nem ligo!” Percebi que ele me olhava, e então disfarcei – não parece, mas sou tímida como um ouriço! Fiquei nervosa – ele sabe como me deixar nervosa – e sem saber o que fazer, sem querer, soltei três bolhas com meus pensamentos (isto sempre acontece...). A primeira, titubeou, mas ao fim do curto percurso, estourou bem no meio da calda do Marlin “Gosto tanto de você!” Senti meu rosto explodir de vergonha, mas logo percebi que a outra bolha também se aproximava, desta vez de suas escamas traseiras “Quero que você seja muito feliz!” Nossa, a superfície do mar é um péssimo lugar para se esconder! “Salve-me, Tritão!” A terceira, e última, foi descendo e descendo, até que passou por ele sem que o mesmo percebesse “Ufa!!!” Nadei rapidamente até um bote salva vidas que pairava ao léu entre meu planeta e o céu. Pulei. Sentei-me bem, debaixo das estrelas (e acima delas). Sabia que ali meu ar duraria pouco, mas muitas vezes alguns minutos são uma eternidade. Pensei no Marlin, tive certeza de que ele guardaria aquelas bolhas – elas eram dele. Pensei em como poderia entender a vida na Terra do Peixe Espada. Resolvi fazer aulas com um tubarão nascido no Ganges para aprimorar minhas técnicas de respiração. A vida naquele lugar é cheia de surpresas e corações fugitivos...
Ops! Soltei outra bolha...

DO OUTRO LADO DE CÁ






Nesta noite, entre a insônia e inúmeras tentativas de nocauteá-la, tive intermináveis sonhos. A sorte é que sempre me lembro de todos – e devo confessar que eles me dizem muito sobre o dia seguinte. Quando os compreendo por “completo” (nunca é por completo), me preparo com todas as forças para o que virá (bom ou não tão bom, tanto faz). Às vezes, não todas, os sonhos também dizem sobre aquilo que estou passando (ou passei), me conectando comigo dentro de imagens surreais, mas absolutamente coerentes. Aí está a mágica: uma tênue e invisível linha que faz a união entre distintos mundos - sonhar é o que posso entender de mais próximo da magia.

Um dos sonhos de hoje (o mais nítido de todos ou o que mais me interessou), trazia consigo uma folha em branco em minhas mãos, e eu, nua, no alto de uma montanha avermelhada (sem vegetação alguma), lia frases e palavras desconexas, dispersas naquele papel. Surpreendi-me ao ler “MATERIALIZAÇÃO DO SONHO”. Lembro-me de ter pensado “vou escrever sobre isto!” – pois é, tenho essa consciência naquela outra vida (talvez mais que nesta). Mas o fato é que escrever sobre isto exige um pensamento longo e voador até as conclusões finais (que nunca são conclusões e muito menos finais). Mas esta tal “materialização do sonho” chamou minha atenção, realmente. A primeira sensação que tive foi de beleza, depois senti felicidade, então me veio os devaneios e as questões - vez ou outra é bom não pensar muito e, como dizem, “deixar rolar”, mas esta técnica ainda é muito distante do que conheço.

Seria isto um presságio? Ou será que é por este motivo que agora estou aqui cheia de formas, flores e perguntas? Não seria eu mesma a “materialização do sonho”? No fim das contas, o ato de sonhar é um lindo modo de se reinventar. Mas eu, eterna sonhadora, ainda aguardo a materialização do sonho, mesmo sabendo que ela já está aqui.