Meio minuto após devorar um pote de pêssegos em calda, desconfiou que houvesse se esquecido no bolso interno do paletó. Procurou-se pela casa, espalhando migalhas de suas guloseimas favoritas por todo o carpete marrom, mas o esforço apenas rendeu intensa dor naquela carcaça indigente.
Não costumava deixar-se, apenas flutuava durante alguns momentos e logo voltava à solidão habitual de seu ego-abismo. Mas desta vez, a avidez louca pertencente apenas ao amor (e aos gansos do Leste) havia lhe colocado em seu devido lugar: o paletó.
Pensou em comprar fogos de artifício em forma de cabide, naftalina, máquinas de secar e tudo aquilo que poderia atrair aquele largo casaco, mas a escuridão do armário (lugar onde provavelmente ele estaria) não permitiria qualquer tipo de manifesto.
Enfim, conformou-se! Aquele paletó era quente e caudaloso, negro e luminoso, como um pessegueiro aveludado em plena Avenida Paulista.