
Não entendia como funcionavam as coisas na Terra do Peixe Espada. Tive que procurar uma concha e telefonar para a Dona Arraia pedindo uns conselhos, mas ela logo disse “Escute aqui, moleca, você vê as coisas com os teus olhos, e essas duas esferas enormes não sabem o quanto precisam aprender a enxergar. Não seja tola, vire-se!” Achei que ela soltaria um “babaca”, mas não foi preciso: estava subentendido. Logo em seguida, tive um surto de pânico, como se o Atlântico fosse eu e nada mais: nenhuma cor, som, estrela do mar, nada de nadica de nada. O que fazer? Resolvi marcar um horário de emergência e fui nadando até o consultório do Doutor Polvofelder. Quando lá cheguei, o Doutor me esperava com os tentáculos abertos e aquele sorriso que só ele tem (decerto ele poderia ser mais feio e menos charmoso, mas não é o caso). Contei-lhe que, na Terra do Peixe Espada, era proibido comer sushi, mas que eu havia me apaixonado por um sushimarlin (que também não comia peixe de modo algum). Disse-lhe que as coisas estavam complicadas, afinal, eu teria que aprender a nadar com as próprias nadadeiras para longe de lá (mas meu coração saltava pela boca e mergulhava entre as Algas Marias do quintal do Marlin). “Como posso costurar este maluco deste coração? Tem linha por aqui?” O Doutor, sempre muito bem humorado, ria das minhas perguntas e dizia “Deixe estar, deixe estar! Siga seu coração, sofra e seja feliz com ele. Estas linhas de pesca aqui são para as Jubarte!” “Este Polvo diz isto porque consegue abraçar o mundo com esta protuberância toda!”, pensava. E lá estava eu, sozinha outra vez, já com o coração sabe-se lá namorando qual das Algas Marias do Marlin. Que rumo eu poderia tomar? Fui nadando borboleta e sem destino, pensando nesta vida aquática de cada dia. “Poxa, eu queria me salvar do maremoto!” Foi então que percebi que estava na superfície, entre marolas, relembrando algumas músicas que fizeram história no Pacífico em 1970. Mergulhei um pouco para respirar e, de repente, lá estava ele, Marlin! “Ah, exímio nadador aquele lá, sem sombra de dúvidas! E que amarelo ofuscante!” Pois é, meus olhos brilhavam ao vê-lo! “Nem ligo que ele não coma sushi, eu gosto dele deste jeito! Ah, como gosto! E devo ser louca, pensaria Dona Arraia, mas eu nem ligo para o que ela pensa! Ah, nem ligo!” Percebi que ele me olhava, e então disfarcei – não parece, mas sou tímida como um ouriço! Fiquei nervosa – ele sabe como me deixar nervosa – e sem saber o que fazer, sem querer, soltei três bolhas com meus pensamentos (isto sempre acontece...). A primeira, titubeou, mas ao fim do curto percurso, estourou bem no meio da calda do Marlin “Gosto tanto de você!” Senti meu rosto explodir de vergonha, mas logo percebi que a outra bolha também se aproximava, desta vez de suas escamas traseiras “Quero que você seja muito feliz!” Nossa, a superfície do mar é um péssimo lugar para se esconder! “Salve-me, Tritão!” A terceira, e última, foi descendo e descendo, até que passou por ele sem que o mesmo percebesse “Ufa!!!” Nadei rapidamente até um bote salva vidas que pairava ao léu entre meu planeta e o céu. Pulei. Sentei-me bem, debaixo das estrelas (e acima delas). Sabia que ali meu ar duraria pouco, mas muitas vezes alguns minutos são uma eternidade. Pensei no Marlin, tive certeza de que ele guardaria aquelas bolhas – elas eram dele. Pensei em como poderia entender a vida na Terra do Peixe Espada. Resolvi fazer aulas com um tubarão nascido no Ganges para aprimorar minhas técnicas de respiração. A vida naquele lugar é cheia de surpresas e corações fugitivos...
Ops! Soltei outra bolha...
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