
Ouvindo os bordões do quarto ao lado, duas mulheres que se amam e desabotoam seus botões em sussurros. O amor é mesmo lindo. Que seja o peito ou a alma, são as mãos que deslizam delicadamente entre as horas das curvas. Vontades são sinônimo de intensidade. Costurando o ontem no tecido que comprei para amanhã, uma seda vinda de lugar algum, a agulha feita de sonhos e os nós de realidade que foge ao tato. Onde se esconde o começo de uma jardineira? Em pensar naquilo que penso, esqueço e lembro outra vez. O começo dos jardins de mim, desconheço, mas sei do que são feitos. Com as pernas entre o travesseiro e o lençol, o branco se misturando entre as cores do quarto, um quadro que sorri em silêncio, os gritos do disco que gira em torno dos meus sentidos. Sinto muito pela estrada intocável do agora, sinto. Vou voando acima do telhado, com as asas de um coelho e sua cartola, vejo e céu mais de perto. Não faz frio nem calor. Amarelo-você no futuro de dias atrás. Eu, aqui, no passado da semana que se apressa. O gemido do quarto ao lado é feito ruídos de portas que se abrem e se fecham no brincar do vento. Por enquanto é isto que sei: as nuvens chovem e voltam a ser nuvens...
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