
Aquele reveillon talvez tenha sido um sonho. Não me lembro ao certo o que aconteceu depois daquele amargo que senti na língua. Lembro-me de uma fogueira, uns tambores e dança – eu dançava, disto eu tenho certeza. Vi umas luzes no céu e as olhei fixamente sem piscar durante uma hora (ou três, ou dez). Eu estava longe, não calculava exatamente onde, mas sabia que precisaria de um avião para estar em casa, ou quem sabe um disco voador. O lugar era enorme e cheio de portinhas, de cada uma delas saltava um fluorescente diferente, rostos e dentes muito brancos. Era noite, mas estava tudo muito claro - talvez eu estivesse sonhando. Eu estava feliz como quem chega a outro planeta (sabe esta sensação?). Eu não falei com ninguém, meu corpo estava interagindo com si próprio com muita naturalidade e extrema intensidade, seria impossível pronunciar algo que pudesse ser filtrado pela pele, pela boca, pela voz e pela palavra. Eu não sei ao certo, mas o tempo passava rápido como um caramujo. Eu estava descalça, meus pés pisavam em terra molhada (ou grama, ou tinta), fiz uma fileira de taças (vazias) no chão, uma cachoeira molhava algum lugar não tão longe. As estrelas começaram a aparecer em meus olhos, mas foi o tempo em repara-las, lá estava outro gosto amargo envolvendo minha boca – desta vez vindo de um gole de água (?). Eu não sei, talvez eu estivesse sonhando. Esperei o disco voador por muito tempo – queria estar em casa (ou no espaço, ou na própria nave). Talvez eu estivesse sonhando, mas a vida já não é um sonho? Aquele amargo era doce, era doce como um sonho que quer ser sonhado. Pois é, talvez eu estivesse mesmo sonhando, mas este é o tipo de sonho que não se esquece quando se acorda.
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