sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Do Seu Jeito








Eu adorava o jeito dele, mas adoro mais agora. Talvez não goste tanto, quem sabe eu não goste de jeito nenhum, ou não goste de jeitos, mas dele, qualquer jeito é um jeito que me faz gostar de jeitos. Enfim, o fato é que hoje acabou a luz, e então eu resolvi sair - talvez se a luz estivesse aqui eu sairia da mesma maneira, não sei. Encontrei cinco amigos, todos atores de teatro, o mais novo deles, uma linda e morena mulher, passeia por seus cinquenta e seis anos. O lugar era agradável, as mesas limpas. Um whisky pela metade enfeitava a mesa, dei um gole “Por favor, um Sex On The Beach!” Falávamos sobre qualquer coisa, qualquer moça, qualquer livro, qualquer viagem... Eu estava distante, constantemente saindo da mesa e observando a lua (cheia) - realmente deslumbrante. Vestia um casaco de couro que guardava um maço de cigarro de menta no bolso esquerdo, mini saia preta e um sapado velho de guerra. Ensaiávamos uma peça cotidiana, estava tudo dentro das marcas, das falas, dos passos. Estava tudo. O jeito dele. Ninguém tinha o jeito dele. Como seria mesmo o jeito dele? Eu imaginava, não certa, mas certeira dentro das entranhas da idéia. Em meus ouvidos ventavam perguntas, e eu as respondia sem saber o que estava pronunciando. O jeito: para o tempo não há jeito. O vento, às vezes, sopra cruel no barco de nossa face insana de papel. Que jeito? Seríamos felizes. Somos alguma coisa deste tipo. O garçom era gentil, sempre disposto a esvaziar o bolso alheio, um senhor simpático com gravata borboleta. Borboleta. Eu usava relógio, havia prometido que usaria, mas ele estava parado. Não fiz a barba (ela não cresce), mas estava impecavelmente desalinhada. A conversa fluía, eu ria, acenava com a cabeça, dizia duas ou duzentas palavras e me calava. Este é meu jeito. Eu estava lá (ou não estava) - normalmente eu ando não estando onde estou. Pedimos algo para comer, alcachofras. Eu adoro alcachofra! Detesto esta palavra, mas adoro seu gosto denso. Comíamos (sem fome) e degustávamos partes da conversa entre a textura do alimento e o áspero aroma da fumaça. O jeito. De qualquer jeito desejei que aquele jeito estivesse ali: é dele que eu gosto e agora este é o jeito. Procurei a chave do carro entre os copos, me despedi daqueles pares de sonhadores olhos com uma frase que os fizeram rir (não me lembro qual), beijei um a um os rostos da mesa, deixando o mais charmoso por último e parti. Qual o jeito? O jeito é agradecer por saber sentir que, de um jeito ou de outro, tudo está aqui. Mesmo de nenhum jeito. Mas alcachofras, estas eu preciso comprar de qualquer jeito.

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