domingo, 13 de fevereiro de 2011

Segredo






Vou brincar de não dormir. Eu quero brincar (e não dormir). Só gosto das coisas quando tenho vontade – o desejo faz do prato uma ilhota deliciosa de porcelana. Entre os lábios, dois canudos molham a língua com o gosto de outra madrugada. Quero gosto de qualquer coisa, quero gosto, é disto que gosto. Sou entregue ao mundo de mim mesma, sou o que quero ser: intensa, penetrante, viajada, sou coisa alguma e tudo. Liberdade, loucura, falta de medo. Quero o navio, o mar e o marinheiro. Quero a sereia e o descontrole do leme. Quero o pirata e um pouco de fogo para queimar o mapa em seus pontos estratégicos. Quero me afogar antes de respirar entre a superfície e a atmosfera louca de Vênus. Ah, como é lindo aquele alaranjado do mar! Mãos ao alto, eu me jogo além do corpo. Eu vou brincar de não dormir, mas se dormir, quero sonhar. Sou o sonho e a onda dos meus quadris. Quero fúria, férias e calmaria. Quero dizer que quero (eu quero). Sentir o aroma de fruta de alguma região entre montanhas e abismos. Quero me perder e me achar dentro de um dragão chinês. Quero brincar de não dormir. Quero brincar (e não dormir).

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