
Tenho pensado em aceitar todos os convites que venho recusando nestes últimos tempos. Todos! E todos em um só dia. Isto significaria interromper um ciclo importante, ao mesmo tempo que, querendo ou não, dar voltas e voltas no mesmo lugar entontece a visão. Tenho sido muito mulher, estou cansada. Talvez seja a hora de ser mais homem. É, homem. Quero um tempo de mim. Quero coçar o saco, é isto. Esta estrada está tomando rumos não tão agradáveis e meu carro está quase sem gasolina. A neblina está tomando conta, pouco a pouco... Preciso enganar minha sensibilidade por algumas horas e calar a alma por uns instantes. Como é mesmo que eu vim parar aqui? Eu não sei. Desta vez eu quero ser homem - e com direito a gravata borboleta e tudo mais. Quero falar grosso e ter mãos grandes. Preciso pisar na terra, mas não como ‘eu’ (isto seria impossível!), preciso de um personagem: Ele, quero ser Ele. Duas ou três rodadas de tequila, todos os convites, palavras ao vento, calça larga, perna aberta, relógio no pulso - quero ser tudo aquilo que não quero ser. Eu ali, na gravata, e Ele o todo. Quero tratar os assuntos com a simplicidade de um peixe boi. Depois quero acordar, colocar um vestido cheio de bolinhas coloridas, dar risada de tudo, e concluir que o que eu quero mesmo é ser Eu. Mas agora, enquanto aparo minha barba, tenho pensado nos convites: eu e Ele, nada mais.
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