quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Prisma Dos Sonhos






Minha vista estava cansada, fechei o livro e apaguei o abajur. Comecei a lembrar de quando li Siddhartha pela primeira vez - em uma avalanche de duas horas - e então passei a recordar as paisagens que aquele livro havia me presenteado em silêncio, paisagens estas que estavam nítidas em minha mente como se eu estivesse pairado por elas no final de semana passado.

Não sei exatamente o momento e nem quanto tempo depois, mas quando dei por mim, estava em um Templo, meditando em frente a um losango amarelo. Levantei-me, passei por dentro da figura e, assim que meus pés alcançaram o outro lado, percebi que não conseguia respirar. Tentei puxar o ar para dentro do peito, sem sucesso, até que perdi totalmente o fôlego. Atravessei o losango de volta ao Templo – tudo havia voltado ao normal. Tornei a me concentrar e, assim que o susto passou, atravessei o losango novamente. Desta vez, do outro lado, havia um jardim imenso cujo fim era o horizonte e apenas algumas poucas flores pincelavam o mar de tons de verde. Foi o tempo de observar aquela dádiva e logo percebi que não podia respirar. Puxei o ar com toda a força - nada. O lugar era lindo, mas ali eu não poderia ficar por muito tempo.

Retornei ao Templo pelo portal geométrico. Uma senhora de olhos puxados e muito pequena me esperava com apreensão e sabedoria, logo, disse em voz serena: “Isto é a meditação plena. São poucos os que conseguem!”. E mostrou-me a foto de três pessoas que haviam conseguido adquirir este “estado de meditação plena” (três homens de sessenta e poucos anos). Balancei a cabeça como quem agradece os conselhos de um sábio...

Nesta altura comecei a entender que estava sonhando – era tudo como na meditação dos sonhos. Olhei o Templo onde eu me encontrava, contemplei a sábia senhora e resolvi que era hora de acordar.

Espere! Problemas na nave!

Eu não conseguia acordar! Quando dei por mim, estava na cama, no estado de sonho, e não conseguia controlar meus movimentos. A falta de ar voltou e eu me debatia. Não sabia mais em qual sonho meu corpo estava e eu tentava me levantar - em vão. Imediatamente comecei a recitar um mantra que venho recitando várias cento e oito vezes por dia. Incessantemente eu recitava e tentava adquirir forças para ir para algum dos sonhos e sair daquela prisão entre mundos. Nada.

Não sei ao certo quanto tempo depois, mas abri os olhos e pude entender que havia voltado para a cama (que estava completamente desarrumada). Eu respirava. Acendi a luz e olhei o relógio: eram onze horas (ou seja, tudo havia se passado em menos de uma hora). Eu não me importava, eu respirava.

Lembrei-me outra vez de quando li Siddartha pela primeira vez e imagens penetraram minha mente... Mas não eram mais as mesmas paisagens de antes! Agora a memória era outra, muito mais aflitiva e bonita: como se eu acabasse de acordar de um sonho...

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