domingo, 13 de fevereiro de 2011

Desregular







Este seu medo atrás daquele muro alto e repleto de frases sem esperança, sua mania de madrugar imerso em teias de arranha-céus, seu gesto indeciso de criança diante de um abismo de guloseimas cintilantes, seus verbos inquietantes, sua pinta de sanidade (ou santidade), sua conversa fora de forma. Você e tudo aquilo que te faz você. É você quem eu não amo! Eu não quero ouvir sua voz – ela não sabe entrar em meus ouvidos com a suavidade de uma bailarina lilás. Eu não quero te esperar ao seu lado. Eu não te quero. Sabe? Eu não sou o tipo que quer. Eu não sou de nenhum tipo. Calculo que daqui duas horas você saberá. Sim, saberá! Quando eu tropeçar na escada, diante do seu cadarço cinza, você vai me despir com os olhos enquanto eu te fito de joelhos. Você vai me ver do avesso. Eu não sinto nada. Eu não sinto. Eu não. Sabe? Eu não sou o tipo que se apaixona. Eu não sou o seu tipo. Queria gritar a eternidade nos seus ombros de brinquedo. Queria te deixar surdo entre o meio dia e o meio dia e um. Mas eu não sou o tipo que grita. A água escorre enquanto eu te invento diante do espelho. Eu não minto. Me vejo e te vejo atravessando o trilho de açúcar. Te dou a mão. Te dou o peito sem você saber. Eu não te aceito. Eu minto. Capto o som distante de um disco voador. Eu não te quero. Eu minto. Nada faz sentido. A curiosidade de amanhã na gasolina do estômago. Não existe nexo. Outro raio, outro dia, outros ares. Eu te deixo por mim. Eu minto. Eu me deixo florescer diante do muro. Eu não sei em que gaveta eu guardei meu nariz. Não há porta para lá do reino azul. Eu te assusto. Eu me arrumo. Vou sair para ver o mar ali no céu além do tempo. Eu não sou o tipo que usa relógio.

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