
Ele estava tentando dizer que o tempo era como aquele fósforo que acendia seu cigarro, e que continuava a queimar em tragadas aliviadas, em seguida se espalhava pelo corredor quente, interior os lábios e, finalmente, libertava-se em meio a sopros e lembranças de lençóis de seda. Ele acreditava que o tempo era medido em maços de cigarro. Antes, o tempo vontade. Durante, o tempo prazer. Depois, o tempo alívio. E os três tempos eram um suicídio lento, romântico e turvo. “Não é o cigarro que mata, o que mata é a vida!”, dizia, e pedia outro cigarro a ela. Ele a adorava, ela sempre tinha cigarros em sua bolsa – embora só os tivesse para poder observar aquele homem sorrir e espalhar aquela fumaça embriagante entre frases intermináveis. Eram um casal destes que todos querem ser: ar de mistura explosiva entre segredos e sonhos compartilhados em um dos quartos do castelo, os corpos no tapete entre a passagem secreta e a lareira aos fundos, as tramas impossíveis, o candelabro. Ela o observava como se cada vez que o olhasse fosse a última, um olhar doce e intenso que se estendia até as cores quentes das embarcações marítimas do peito. A almofada. O cinzeiro era o único que podia guardar o tempo e o espaço entre o ar e os dedos. Ele dizia que os segundos são aqueles que antecedem as bitucas. Ela contava os maços restantes e pensava como era possível contar o tempo sem os cigarros. Ele sorria como se explicasse, em meio a tragadas, que o tempo só existe depois que se aprende a cortar o lacre da caixa, e que sempre há algum cigarro pelo caminho para indicar as horas. Ele fumava. Ela voava explorando as bordas daquele homem e esquecia que o vento soprava a fumaça do tempo. Ele ascendia outro cigarro. Eles realmente eram um casal de dar inveja. Mas só por algumas bitucas. Fósforo?
Admiração é algo silencioso que se cultiva observando a cada vírgula , a cada instante , a cada serenidade que me causa ao passar por aqui...
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