
Certa vez, construí uma embarcação, lá cabia tudo o que eu precisava para poder manter o coração no peito e os braços no tronco. Coloquei uma vela bem grande que dizia "à deriva", assim, os piratas e as nuvens ficariam em seu lugar, longe das madeiras que carreguei até minha armada construção. Eu tinha medo, pela primeira vez estava sozinha, calculava os números de ondas, usava um guarda-sol cor da pele - Intocável, era o nome daqueles dias. De longe, em um dia típico em que pássaros sobrevoam os céus de cristal, avistei uma ilha: era a primeira vez que tive vontade de chegar a algum lugar. A ilha era linda, de um branco que eu nunca havia visto, parecia feita de sonhos - eu me beliscava para ter certeza se não estava a dormir: realmente não estava. Minha embarcação travou em uma rocha e se eu ficasse em silêncio, ali, parada frente à ilha, podia ouvi-la dizer em sutis sussurros: "Obra do acaso, obra do acaso..." - justo eu, desacreditada do acaso. Eu não tinha mais como me manter viva, aquela embarcação parecia muito apertada para o meu corpo todo "como eu pude estar tanto tempo aqui?". A ilha brilhava cada vez mais e então decidi mergulhar naquele imenso oceano e nadar até ela. Senti-me livre "como eu amo o mar!", senti-me cheia "como eu sou grande", senti-me nua "sou a transparência do que não pode ser visto!". Nadei, meus braços faziam movimentos incessantes, minhas pernas batiam e faziam danças entre sereias sincronizadas, comecei a sentir o calor do sol "não preciso mais do meu guarda-sol, não preciso!", as nuvens refletiam na água, formava um desenho de um chapéu, cavalos-marinhos me acompanhavam indicando o caminho, e eu ia, respirando calmamente. Ao chegar na ilha, procurei por uvas - estava com fome - achei uma plantação inteira, eram todas lilás e com aroma de poesia "que lugar lindo!". Meus pés flutuavam sozinhos e trilhavam um caminho certo, e eu ia, apenas ia. Tudo estava em uma harmonia naturalmente incrível - árvores, flores, cerejas, areia, plânctons luminosos - tudo aquilo que parecia já estar incrustado em mim há milhões e bilhões e trilhões de anos. Ouvi o barulho de uma cachoeira "Deus, como amo cachoeiras!", fui, vagarosamente sentindo o som da água em movimento constante, cheguei. Em uma pedra, sentado, havia um chapéu com os pés na água azul esverdeada "então era isto, nuvens, então era isto!" - lembrei-me de ter desejado aquela abas outrora - sereno, perfeitamente alinhado, lá estava ele, como se esperasse meus cabelos em seu tecido. O envolvi delicadamente em minhas mãos e o coloquei na cabeça "nossa, encaixe perfeito!", senti uma tontura astral, imagens vieram à tona em minha mente, meu coração disparou, minhas mãos transpiraram, meus olhos encheram-se de boas lágrimas, minhas pernas bambearam - lá estávamos nós, eu e o chapéu, como se fossemos um feito para o outro. Deitamos para colecionar nuvens e então ele me disse: "Esta é nossa ilha, ninguém mais pode entrar aqui, a porta de entrada tem nosso nome, nossas cores, nosso cheiro. Aqui tudo é feito de um pedacinho de nós dois, vê?". Sorri, lembrei-me da embarcação onde pousei por anos, questionei onde o chapéu se escondia este tempo todo, e ele, com suas abas furta-cor apontando para o meu peito, disse: "Aqui, meu bem, aqui!".
Nenhum comentário:
Postar um comentário