sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O Sábio Sabor da Xícara




Perguntei para uma xícara se sua asa não era muito solitária. Em um gole de chá ela disse, dissolvendo delícias em minha garganta, que seu voar líquido e suave não dependia de sua asa, mas do amor dos lábios sedentos que mergulhavam vontades em sua borda. Perguntei, ainda curiosa, se ela se afogava no transbordar das mãos apressadas - ela, nova e branca, disse que o ar por si só já a fazia transbordar o tempo todo, sem fazer ruídos ou provocar imagens aquáticas, assim, o ato desligado dos seres humanos servia apenas para a banhar por fora em um delicioso e refrescante mergulho de sabores distintos. Calei-me e logo em seguida ela embargou-me com as mesma perguntas que eu lhe havia feito instantes antes. A olhei delicadamente, apalpei minhas costas - não havia asa - coloquei as mãos no peito - não estava trasbordando. Parei, a envolvi em meus dedos e trocamos fluidos entre bordas e salivas - sorri em silêncio.
Sábias xícaras...

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