
Perguntei para uma xícara se sua asa não era muito solitária. Em um gole de chá ela disse, dissolvendo delícias em minha garganta, que seu voar líquido e suave não dependia de sua asa, mas do amor dos lábios sedentos que mergulhavam vontades em sua borda. Perguntei, ainda curiosa, se ela se afogava no transbordar das mãos apressadas - ela, nova e branca, disse que o ar por si só já a fazia transbordar o tempo todo, sem fazer ruídos ou provocar imagens aquáticas, assim, o ato desligado dos seres humanos servia apenas para a banhar por fora em um delicioso e refrescante mergulho de sabores distintos. Calei-me e logo em seguida ela embargou-me com as mesma perguntas que eu lhe havia feito instantes antes. A olhei delicadamente, apalpei minhas costas - não havia asa - coloquei as mãos no peito - não estava trasbordando. Parei, a envolvi em meus dedos e trocamos fluidos entre bordas e salivas - sorri em silêncio.
Sábias xícaras...
Nenhum comentário:
Postar um comentário