
Para despistar a insônia, deito na cama e começo a inventar coisas, mas minha cabeça vai indo além e se passa de um certo limite entre a porta do pensamento e a placa indicando o caminho do sonho, preciso levantar e escrever. Com a chuva, claramente a cama tem mais potencial, mas de qualquer modo a enxurrada de pensamentos é mais forte. Levanto, escrevo, tomo um copo de água (ou cinco), vou olhar as gotas de chuva na árvore porosa em frente ao quarto (ela faz do caule uma espécie de córrego vertical), escrevo mais um pouco, esqueço metade do que havia pensado, apago outra metade, canso a vista e pronto: lá estamos nós em uma péssima transa, eu e a insônia – e como ela me sufoca! Coloco um filme (nesses últimos tempos tenho feito um estoque deles a cada dois dias), abro as janelas (prefiro vento e pernilongos ao abafado), apago todas as luzes, me jogo em seis ou sete travesseiros e tenho a doce ilusão de que em certa altura meus olhos irão se fechar – mas que beleza! Embora o sono esteja de mãos dadas comigo, a atenção não consegue pensar em absolutamente niente: o mar lembra o poema que li no livro do cachorro da vizinha que piscou os olhos na mesma hora em que espirrava – tudo no mar, é claro. E assim a noite rola no lençol das pestanas espevitadas...
Tudo certo, não posso dizer que não exista uma bela diversão neste arrastar de ponteiros, mas o engraçado é que isto acontece sempre que estou sozinha - se eu estiver com alguém (não necessariamente na conotação homem-mulher, ou o que preferir) durmo extremamente rápido. Enfim, talvez eu não queira deixar os alheios malucos, talvez goste de companhia ou talvez as pessoas me dêem sono. De qualquer maneira minha vista está cansada e um filme me espera. Ou será que eu ligo para alguém?
Nenhum comentário:
Postar um comentário