domingo, 30 de janeiro de 2011

Ela Castiçal




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E então adentrou uma figura cujo físico era exatamente tudo aquilo que ela achava de mais feio. Onde estava o cabelo? Ela adora cabelos. Seres normais, não, a calça larga, não, não. Ele a olhou, sorriu, aproximou-se. Ela estava embargada, se sentiu invadida com um simples olhar daquela criatura. Relógio no pulso, não. Ele aproximava-se com uma calma torturante. A camisa devidamente mal escolhida, não. Ela queria sumir naquele instante, não sabia ao certo o motivo, queria apenas sumir num estalar de dedos. Ele parou a alguns centímetro da moça. O perfume forte, não, ela não gosta de perfumes. Ele perguntou como ela estava – eles se conheciam -, ela disse, olhando para o quadriculado do chão, que estava tudo bem e deu-lhe um sorriso nitidamente amarelo-cai-fora. Ele é daltônico. Perguntou se ela estava casada, e por um instante ela pensou em dizer que sim (ou havia virado freira), mas a bebida em suas mãos solteiras denunciava. Ele sorriu. Ela rosnava por dentro, aquela figura, não. Ele ousou saber se ela havia mudado de idéia. Ela jamais pensou sobre aquilo, não havia como mudar de idéia, não havia idéia, apenas aquela imagem latejante em sua frente, aquela criatura, não. Ele pegou suas mãos, ela, rapidamente soltou e franziu as sobrancelhas, como se gritasse calada que aquela área é terminantemente proibida para os seres humanos. Ele não titubeou, continuou com sua ousadia extremamente inoportuna e disse-lhe que era com ela que queria se casar. Ela não sabia explicar como aquilo tudo a incomodava, era fora de qualquer plano mental, como se pilhas carnívoras invadissem um oceano de gaivotas, algo terrível, abominável. Tudo isto pela simples presença daquela criatura. Nem nas profundezas mais obscuras de sua imaginação ela poderia imaginar tal situação. Ela queria gritar, aquela figura, não. Quase perdeu a educação, mas preferiu calar-se. Ele colocou a mão no bolso, tirou um presente. Aquilo foi a gota d´água. A moça, sentindo-se um castiçal russo, deu-lhe as costas e foi embora. Aquela figura, por mais que ela pudesse querer entender ou explicar a si própria o motivo, a incomodava além das palavras. Aquela figura a assustava como uma criança no apagar das luzes em uma tempestade. Como isto havia chegado a este ponto sem que ela soubesse ao menos o que dizer? De que maneira aquela figura havia ficado cega? Onde estava todo o mundo? De onde surgia aquele medo e aquela repulsa constante? Por que aquela criatura não a deixava em paz? Ela só queria correr. Aquela figura, não.

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