quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Retiro


Não, eu não retiro o que disse. Apenas transformo e acrescento palavras engasgadas no fogo do meio do corpo ao meio, às passadas rasas dos últimos minutos que jamais contei.

...

Enquanto venero a árvore de veludo sem cor de hoje, escuto suas folhas triangulares rirem de meus encantos secretos por abismos marítimos. Elas, espevitadas e alaranjadas, percebem as situações que revivo pela milésima vida e fofocam como vizinhas fartas de suas casas e seus portões-bordões bordô. Eu, apertando o silêncio a favor do peito, gargalho, choro e repito cento e oito vezes aquilo que preciso precisar – ar. A grama e seus diferentes tamanhos de amarelo-café, brinca com meus pés, mas eu não sinto – a terra na Terra é único lugar em que não estou. Ouço o pavão – cócegas. As pernas formigam como saúva nova em chamas. Montanhas cativam bruscamente os círculos mesclados do rosto. Curvas. Picos. Já não sei mais onde estou. Ainda escuto as risadas enfadonhas das folhas. Sou um rio, corro pelas margens no ritmo frenético da correnteza de fluídos apaixonados. Paro. Repito. Fecho. Abro. Corro. Retiro. As folhas, elas riem. O pavão.

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