terça-feira, 16 de novembro de 2010

Em




Eu não queria admitir o medo que sentia daqueles ponteiros me olhando fixamente, eu não queria. "Se todos os relógios fossem iguais e marcassem sempre a mesma hora". Eu prendia o ar e com o peito cheio, soltava levemente para ver se o tempo passava mais devagar, estava em uma imensidão gelada tentando achar um bote para que ficássemos à deriva em alto mar - lá não precisaríamos de horas e os minutos não correriam contra nós - todo o tempo do mundo para as mãos, dedos, bocas, pensamentos - todo tempo do mundo entre marolas e ondas de mais de cem metros - nos cobriríamos, então, para dormir entre pernas, pele e cavalos-marinhos. Eu olhava no espelho procurando por nós e quase sempre estávamos ali, sentados, incrivelmente juntos em uma constante troca de fluídos de uma correnteza refletida em olhos apaixonados. Eu não queria deixar o carrilhão nos esmagasse, e a cada badalada meu coração saltava pela boca - "outra imagem", pensava, "outra imagem". Eu não queria deixar aqueles ponteiros escorrerem a insuportável vontade de estar em alto mar. Eu estava paciente, mas o tempo gritava atrás de mim - eu realmente estava assustada. Meus olhos atentos olhando em volta, eu estava mesmo com medo. Onde você estava? Onde você pousava, meu bem? E eu sonhava alto com esperanças de um amanhã cedo: “Vamos para algum lugar entre o infinito e Marrocos...”. E de longe eu escutava alguns sussurros que me acalmavam...

Nenhum comentário:

Postar um comentário