
Ontem, quando finalmente preguei os olhos, tive um sonho do qual me lembro com perfeição...
Acordei no andar de cima de uma casa que não era a minha, desci as escadas - já sabia o que estava procurando. Passei por uma sala, avistei uma pequena cozinha de um lado e do outro, uma porta. Claro, fui até a porta e a abri com curiosidade e constrangimento, afinal, como já dito, a casa não era minha. Ao olhar pela fresta, ao lado de um sofá-cama, pude ver uma pequena mesa com peças coloridas como se fossem de xadrez, mas ao chegar mais perto, cada uma delas tinha um pequeno bilhete dizendo o seu significado. Elas estavam espalhadas em uma maquete onde também haviam flores, morros, árvores - tudo tão pequeno quanto a palma da minha mão. "Nessa altura, já sabia que estava sonhando e o que aquilo queria me dizer". Foi então que, da cozinha, chegou-me um leve ruído aos ouvidos. Rapidamente saí daquele cômodo e ele estava lá, em um balcão, com uma caneca branca de chá nas mãos. Olhei, tímida, e o olhar de timidez retornou às minhas pupilas - ele também já sabia de tudo. Perguntei se podia entrar outra vez por aquela porta, e ele respondeu que havia feito aquilo para mim, mas estava um pouco pensativo, enfim, alguns segredos estavam ali, em miniatura, escondidos entre arbustos, animais e frutos meticulosamente escolhidos. Fui, então, até a porta, em passos de valsa e olhar aos cantos dos olhos, e ao penetrar mentalmente naquela mesinha, enxerguei tantas peças e papéis escritos em tantos idiomas e cores que tonteei - eram tantas formas que eu mal podia distinguir o que via - não sabia ao certo como ler tantos sinais. Decidi fixar os olhos uma última vez naquela psicodelia disforme e, repentinamente, minha memória apagou todas as peças que lá estavam instaladas. Mas duas delas, apenas duas, fixaram-se no fundo dos meus olhos: dois leões cor de rosa que, galanteadores, posavam como guardiões do portal de entrada daquele peculiar mundinho gigante.
Acordei, ele não estava, as peças não estavam, o sonho não estava. Levantei, virei a torneira da pia, abri os olhos com as mãos no rosto e, no reflexo do espelho, brilhava nos dedos... um anel.
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