sábado, 20 de novembro de 2010

Ponte do Agora




Às vezes me pergunto se hoje é ontem ou amanhã. Um sol se pondo enquanto outro nasce do outro lado de uma ponte qualquer de uma ilha rodeada por barbatanas cintilantes. Travessas se cruzando o tempo inteiro levando tudo para o mesmo lugar em uma enxurrada de congestionamento e dores de cabeça na bandeja. Pernas, passos, saltos, esfinges, cascos, neve - palavras. Como dar sentido ao que se vê? Como ver? Quem ensinou que aquele azul é mais escuro que os olhos daquela lontra? Tranças, castelos, deuses, asas, lendas, lamentos. Peregrinação ao desconhecido dos sábios leigos sedentos por razão. Quem tem razão? Onde se vende? A razão é invenção que mata sentidos e sentimentos. Raciocínio: culpa de quem? Dinheiro – árvores: transformar natureza em burocracia, dormir na rede do pescador faminto lambendo os dedos fartos de unhas. Cheque-mate. Cavalos, rainhas, torres, abuso. Tanques de guerra ou areia nas vitrines repletas de mecanismos feudais. Sorrisos são dentes, lábios são sexo, pés são sapatos, portas são travas. Eu não sei se hoje é ontem ou amanhã, ou se tanto faz. O mundo não se importa, apenas ignora - são quase todos bípedes e ignorantes. "Céus, arranhem a pilha de corpos televisivos pendurados nas janelas fechadas!".
Tentações: simples desejo dizendo que alguém está vivo. Perigo: motivo para correr e sentir as pernas em movimento. Respirar! Respirar! Já parou para sentir o ar envolvendo as narinas?
Onde foi que os rascunhos deixaram suas vidas? Foi quando se deram conta dos cérebros ou das coxas? Onde estão os asteróides? Onde estão os extraterrestres? Onde estão os mágicos, os gansos, os anéis de saturno?
Eu não sei se hoje é ontem ou amanhã, mas sei que está noite é agora e nunca mais.

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